Chegou com os olhos tristes, aparentemente cansados. Na fala, certa angústia ou amargura… Decepção. Eu, ocultando uma tristeza bem escondida sob a máscara da segurança, olhava friamente para a dureza do mundo que, desatento no acaso, permite toda sorte de injustiças entre as pessoas.

Contou-me suas agruras e como se sentia mal por perceber um outro mundo à sua volta, do qual não conhecera a existência até então. Imagens estampadas em sorrisos, palavras e frases elaboradas com o aval da filosofia que mascara a realidade da vida, enquanto cumprem os atos típicos de um sistema ao qual condenam. Onde vaidades, poderes e egos se misturam, criando uma sintaxe na  linguagem sobre a  vida e uma pseudo-humanidade carregada de hipocrisia. Discursos se sobrepondo às ações benfazejas.

Depois de alguns dias e  noites perturbados pela lembrança daquele momento, acordei e pensei no quanto seria bom se a vida fosse como poesia, literatura. Poderíamos manipular as situações complicadas, influenciar os personagens… Eu já fiz isso. Dormi com várias mulheres, lindas cantoras, que encantaram toda a minha vida e sussurravam, obedecendo ao texto, naquela noite, seu canto para me fazer dormir. Em outra ocasião, transportei para as cordas do violão e para a ficção romanesca, um amor impossível… Tudo isso está lá, nos textos. Mas a visão e a percepção da tristeza, do choro angustiado, me arrebatam o entusiasmo com o mundo e as pessoas.

Amigos próximos recomendam que eu transfira para os escritos, meu lado bem humorado e, às vezes, engraçado. Eu não consigo. Bom humor e gargalhadas são movidos pela despretensão. Pelo descompromisso com as normas, conceitos e preconceitos. Do contrário seria ironia… Já houve alguém que disse também, em tom de brincadeira, que eu só vejo beleza em tudo e em todos. Poesia. Pode ser…

Foi com os poetas que eu descobri que há sempre um jardim florindo em cada acontecimento da vida. Que mesmo em horas difíceis, quando pensamos que não há uma saída, temos que regá-lo. Que as mudanças somente se aproximam de nós se nos desprendemos daquilo que idealizamos como mundo. A desmaterialização de um conceito formatado ao longo da vida, nos leva à confusão, à tristeza. Mas é a única forma de nos abrirmos para novos pensamentos. De aceitarmos os acontecimentos do mundo lá fora. Onde residem as possibilidades. Pelo menos do mundo material. Dentro de nós mesmos, sabemos que temos muito que aprender para viver melhor. Ou lembrar o que já sabemos.
Agora, com o pensamento aliviado daquele dia triste, penso que tudo acontece na medida do que necessitamos para crescer. Para sermos melhores. Cada um, ao seu modo, exercitando a vocação inata da busca do bem estar e do viver bem. O contrário não nos interessa. Não nascemos com talento para isso. Se fosse hoje, talvez eu dissesse à pessoa triste, com um largo sorriso no rosto, as belas palavras do mestre:

“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo no meio do fel do desespero. Ao que, esse mundo é muito misturado…” (Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)