E o tempo passando. E os passos seguindo. E as ruas andando…

Olhando nos olhos, disse que os planos haviam mudado. Que a direção do sonho seguia outra orientação. Que os dias e noites não eram mais os mesmos. Sobre a mesa, os dedos tamborilando uma tampinha de garrafa. Sufocando um desejo de engolir uma dor que se formava na garganta. Ritmo reproduzido em percussão surda. Sem beleza de timbre. Embalando e distraindo a dúvida. A tristeza.

Levantou-se e, sem ajeitar a cadeira sob a mesa, partiu. Não se atrevia a olhar os passos que se afastavam, distanciavam… Apenas ouvia. Talvez pensasse em um longo abaixar de final de música. Daquelas que embalavam danças na adolescência. Que  gostaríamos que jamais se acabassem. Os timbres puros e ricos se afogando no silêncio. O rosto se afastando do cheiro que emana do colo do passado, cedendo lugar para as batidas fortes do coração, harmonizadas pela respiração ofegante, produzida pelo som de dentro. Amparadas pelo pulsar inerte dos dedos sobre a mesa…

Hoje a névoa chegou cedo, no arrastar das ruas. Terna e complacente concedeu um pequeno espaço para a luz, o barulho dos anos, os sons do mundo e o andar dos tempos. Para a solidão das ruas… Do corpo cansado. A pele flácida, saudosa do cheiroso aconchego macio e viçoso dos tempos. Sonhadora. Os sons do passado com ritmo lento. O olhar plácido e carinhoso. O encontro, o adeus, o sonho e o reencontro. Olhos lentos, passos arrastados. Braços dados se despedindo dos tempos que passam. Dos passos que seguem. E das ruas…