Percebi, pelo retrovisor, um casal aprontando sua cama em um lar improvisado, próximo de um cinema restaurado e inaugurado recentemente, em um bairro de Belo Horizonte. Ironicamente, pensei que filme poderia ser esse… Depois de uma breve lembrança de “A lenda do Santo Beberrão” e “Os amantes da Ponte Neuf”, voltei para a realidade. Observei ainda, um cão de rua machucado e inseguro, comendo os restos de uma “quentinha”, já em fase de decomposição. Pensando em nossos “restos” humanos e me sentindo um hipócrita por tais pensamentos, segui para um restaurante.

Mais tarde, de volta ao carro, olhei cautelosamente a cena desse filme monstruoso que permitimos ser realizado com personagens reais, usados como figurantes… Já dormiam. Pensei no quanto estamos atrasados em questões humanitárias. Como buscamos justiça em políticas sociais carentes de seriedade, às vezes munidas de falso paternalismo, com investimentos partidários alheios ao humanismo. Como prestamos culto, ou melhor, negociamos com deuses por meio de religiões ou outros representantes do além, na esperança de obtermos o sustento básico ou o poder que julgamos necessário para nos mantermos na luta do dia a dia. Gastamos muita energia falando de coisas complexas e intelectuais, verdadeiras artimanhas político-sociais, e não nos damos conta de que permitimos barbáries e humilhações que subjugam a raça humana. Em alguns casos, compartilhamos e somos coniventes com o  julgamento das vítimas, sob alegação de um possível acomodamento social ou mental.

Do breve olhar, antes de seguir em frente na vida,  só me restou a dúvida: O que posso fazer?

“E se o sol nascer for do mar e não for manhã?”** Do mesmo poeta me vem a resposta: “Eu vou saber viver…”

O cão já não estava mais ao lado. Daquela “quentinha”, sobrara apenas o isopor.

*Alusão ao livro “Suave é a noite” – F. Scott Fitzgerald
** Trecho da música “Cadê estrelas” de Marco Antonio Guimarães e Antônio Martins