Semblante tranquilo e um olhar muito doce. Daqueles que nos perturbam quando baixados, nos fazendo sentir que perdemos alguma coisa que nos congelava com seu calor. Um leve movimento de sobrancelhas emoldurando e demarcando um rosto delicado. Foi assim que a vi em minha memória e me perdi nas palavras dirigidas a dois amigos senhores das palavras. Dois poetas da música.
Tentava manter um diálogo enquanto me perdia nas veredas do pensamento ao relembra-la. Surgira na multidão e nela se perdera rapidamente. Tempo suficiente para que a lente de meus olhos a fotografasse. Um erro… Retrato guardado na memória não nos permite saudade. É segredo da visão interior. Não pode ser compartilhado com o tato, o olfato, o paladar, a audição… Nem com os olhos que viram.

A beleza sempre me  embaraça. Não somente a beleza feminina. Qualquer tipo de beleza me faz sentir que existe a possibilidade da confluência de vários fatores em nossas vidas, frutos de acordos e encaixes naturais. Acasos que nos levam à possibilidade da existência, da experiência do belo. Quando associada, nas pessoas, à leveza dos gestos e do pensamento, à gentileza nas relações e à mansidão da alma, vislumbramos aquilo que temos como ideal para a vida: Beleza e Natureza em perfeita harmonia.

Enquanto, em minha memória, eu repassava, ou buscava, aquela visão que tivera, no fundo da mente, eu tentava retornar ao assunto interrompido pela lembrança daquela imagem. Os sentidos se confundindo e truncando sentimentos tão doces e profundos. Lá fora, o barulho de um começo de noite no Rio de Janeiro, com muito trânsito e pessoas que, sedentas, buscavam nos bares,  amparo para o estresse do dia a dia e para os tormentos do coração. Eu, aplacava esse calor e cansaço, com uma cerveja gelada, que esfriava, em meu peito, o sentimento de inquietude peculiar nesses momentos de observação e lembrança. Enquanto isso, vozes à minha volta invocavam palavras doces, sutis, escolhidas por pessoas sensíveis – poetas – para nos servirem como setas para o verdadeiro amor. Talvez em vão. Mas isso é poesia…

Na mesa, pequenas marcas dos copos e garrafas de cerveja, criando um movimento cíclico, circular. Inundando, molhando e sufocando, naquela toalha, as conversas que brotavam de sentimentos vividos e aprendidos. E o  barulho da cidade; e a fala alta das pessoas; e o pensamento… E ela sorrindo, ocupando o sonho. E a transparência de seu vestido leve, o ajeitar dos cabelos… E o sorriso que pensei que fosse para mim… Talvez.

Na multidão ela se perdeu. Triste, sorvendo um último gole da cerveja já morna, mirando os dois amigos poetas, à minha frente, indaguei:
– E o amor?
– Amor – disse um deles, grande senhor das palavras do coração – ideal, é amar todas as pessoas que estão à nossa volta. Apaixonar-se por todos. Mesmo sabendo que viver e conviver, nem sempre nos leva àquilo que buscamos ou gostaríamos. Amor incondicional…