Disse-lhe que nessa noite o jantar seria escolhido por ele. Sorriu um sorriso surpreso e, sem esconder certo contentamento, folheou o cardápio como se já soubesse o que pedir. Olhou-me nos olhos e pude perceber certo amadurecimento em seu rosto bonito, meigo e delicado. Quis tocar-lhe as mãos, mas me contive. A suavidade e beleza naturais, quando se expressam, têm que ser acariciadas com os olhos. Entre assuntos leves, sorrisos despretensiosos e divertidos, pudemos sentir a noite avançando lentamente, na urgência dos que precisam viver intensamente cada segundo, eternizando cada ação e, posteriormente, enumerando tudo que deixou de viver naquele eterno pequeno instante.

Foi com esse sentimento que, mais uma vez, me despedi. Despedida cheia de códigos combinados no viver do dia a dia. No andar do tempo…

Dormi a primeira hora da noite com um sono leve, sentindo na lembrança, o bem estar da vida invadindo meus sentidos. Uma janela aberta, cedendo espaço para um vento suave que me fazia sentir frio, me despertou. Naquele estado de transe que nos anuncia o sono, ouvi uma música melodiosa que, insistente, não me deixava aprofundar na sonolência. Vestígios, talvez, de uma noite de insônia.

Meus pensamentos vagando por histórias confusas, lembranças daquele jantar, da despedida e dos tempos da adolescência. Sentia uma saudade imensa do passado e pensava em como seria bom poder voltar no tempo, visitar as primeiras experiências da vida. Envolvido por esse desejo, não sei se dormi ou se me conduzi para outras áreas de minha mente. As lembranças, pouco a pouco, ganhavam uma trilha sonora. O “Träumerei” inundando meu quarto com sua delicadeza, na interpretação virtuosa de Vladimir Horowitz, me conduzindo à leveza e à possibilidade de viver com “jugo suave e fardo leve”.

Naquele instante, na escuridão, meu quarto se tornou um ponto de encontro onde o passado se confundia com o presente, trazendo grandes homens que faziam parte de minha história, de meus anseios e dúvidas. De minha vida. Alguns, silenciosos. À espreita. Talvez aguardando o momento de mostrar com a sua forma de compreender a música, a beleza de coisas que esquecemos no andar da vida.

Lembro-me que Arthur Rubinstein ensaiava alguns acordes de Rachmaninoff, desembocando em um belo tema de Paganini. Timidamente, em um canto do quarto, Claudio Arrau, sério, repassava, com movimentos soltos no ar, um trecho do Concerto nº 5 de Beethoven. Glenn Gould tocou o Adágio Sustenuto da, hoje, chamada Sonata ao luar. Pelo seu olhar, creio que esse gênio que tanto me encantou com suas interpretações, suspeitava que eu não gostava do andamento um pouco rápido de sua execução.

Não me lembro de todos…

O dia começava a clarear quando abri os olhos e, com a vista um pouco turva, vi, debruçado sobre o piano, Bill Evans. Que lindo poder ouvi-lo tocando a Valsa em Si Menor. Terminada a música, despertando de um transe, ele me olhou durante algum tempo. Pareceu-me ter ouvido de seus lábios: – You must beleave in spring -. Era verdade.

Lentamente, o quarto voltava a ser o mesmo de sempre. Já havia alguma luz se debatendo com as lembranças, tornando a realidade sonho. Desliguei a música dos mestres que me embalaram a noite toda e caminhei até a janela. A manhã anunciava um lindo dia pela frente. Depois de um breve café, liguei para aquele que me inspirara na noite anterior. Disse que o amava e o quanto eu gostara de nosso jantar. Que deveríamos repetir várias vezes. Ele, depois de um breve silêncio, disse esbravejando bem humorado:
– Pai, isso é hora para ligar e falar de amor? O dia raiava e trazia um Ano Novo…

Músicas relacionadas:

Träimerei (Robert Schumann) – Intérprete: Vladimir Horowitz

Rapsódia sobre um tema de Paganini (Rachmaninoff) – Intérprete: Arthur Rubinstein

Concerto nº 5 (Beethoven) – Intérprete: Claudio Arrau

Sonata ao luar (Beethoven) – Intérprete: Glenn Gould

valsa em Si Menor (Bill Evans) – Intérprete: Bill Ébanos