Recebi um convite para ir ao “Museu da Imagem e do Som” (MIS), no Rio de Janeiro, para assistir à gravação de um  “Depoimento para a posteridade”, uma grande iniciativa que nos garante um futuro para nossa história musical. O protagonista, nesse dia, uma grande personalidade de nosso tempo: Paulo César Pinheiro. Letrista do primeiro time brasileiro, romancista, roteirista, produtor… E  grande contador de histórias. Fantástico.

Conheci sua obra quando era muito jovem, estudando os LPs de Baden Powell, do qual devo conhecer quase tudo. Talvez eu tenha tocado grande parte das músicas que ele compôs. Músicas instrumentais e vocais.
Foi na busca de informações, gravações e pesquisa da discografia e do  repertório do Baden que pude mergulhar fundo no trabalho de Paulo César Pinheiro. Tive o privilégio de conhecê-lo, ouvindo Elis Regina interpretando a primeira música composta pela dupla: Lapinha. Letra de um gênio inspirado que iria me surpreender ainda mais, após ouvir a belíssima “Viagem”. Essa, anterior à “Lapinha”, em parceria com João de Aquino, primo do Baden.

Ouvi-lo contar sobre sua vida, o começo, aquilo que ele chamou – e eu adoro – de vadiagem, foi algo emocionante… Sobre o primeiro amor (paixão) e sobre o poder da poesia para unir as pessoas, mesmo que isso nunca seja consumado, mexeu muito com minhas convicções. Sempre acreditei que as pessoas falando de si mesmas, de sua história, nos convencem de nossas verdades existenciais. Do mesmo que vivemos em épocas e situações diferentes.

Momentos cruciais foram aqueles em que ele falou da boemia, das noitadas e histórias que o conduziram às grandes amizades e grandes criações. A casualidade da vida. Ali me vi espelhado e, com ele, caminhei pelas madrugadas, fui aos bares de sonolentos garçons e… Acordei com belas ideias e soluções musicais. Paulo César Pinheiro é cultura, poesia e música transpirando no trabalho do dia a dia, na criação de uma vasta obra que enobrece nossa classe. Essa é nossa verdadeira cultura brasileira. Nossa verdadeira música. A do trabalho, esmerilhamento e polimento na criação artística.

Temas complexos como a forma como definimos a música na atualidade, foram abordados por ele com certa tranquilidade, pela clareza e convicção como ele entende o que, hoje, chamamos de “música de entretenimento”. Isso, além de confirmar minhas crenças, me tranquilizou o pensamento. Sempre achei que os artistas da música têm muita dificuldade para atingir esse tão importante e óbvio discernimento. Quantos se perdem na busca de um “Eldorado”, pela via da busca de projeção insuflada pelos acontecimentos de artistas nacionais,  financiados e elaborados a partir do marketing de grandes produtoras e gravadoras… Modismos. Levando-os, às vezes, à frustração, enquanto levam, na bagagem, pérolas musicais desenvolvidas ao longo da vida.

Enquanto eu o ouvia, pensava em meu acerto, na vida artística, ao perceber que se buscamos um “negócio” no sentido literal da palavra, temos que nos portar como comerciantes, empresários. Desde a organização em todos os aspectos – contábil, jurídico e empresarial – até o envolvimento e preocupação com questões e tendências de mercado.

Saindo do MIS,  tomando um chopp e olhando as ruas movimentadas do centro do Rio de Janeiro, relembrando toda a história criativa desse grande brasileiro, lembrei-me de um momento em sua narrativa, que muito me tocou. Contou que, fisgado pela primeira paixão, em uma noite, olhando o mar com uma lua cheia deixando seu rastro na água, inquieto, não teve outra alternativa. Apanhando um lápis e papel sobre uma mesa ao lado, escreveu sua primeira frase poética…

Eu quis saber qual teria sido essa frase, mas não podia perguntar. Segredos há para todos nós que queremos guardar tudo o que vivemos, aprendemos e apreendemos. Eu tenho os meus. Certamente todos têm os seus… Feliz!