Uma professora sugeriu às crianças do segundo ano primário, que ouvissem uma música e comentassem os sentimentos que ela provocava. Todos se concentraram na audição e falaram de sua percepção. Sentiram a luz do dia resplandecendo dos sons, o dia escurecendo… A proximidade da chuva, uma grande trovoada seguida de tempestade e o arco íris formado após o temporal, numa tarde bonita. Era o ano de 1971 quando eu, entre essas crianças, ouvi pela primeira vez a Sexta Sinfonia de Beethoven: A Pastoral.

No final da audição a professora disse: “Esse homem mudou a música da humanidade”. Hoje eu penso: Essa aula mudou a minha vida…

Dilermando Reis foi o primeiro violonista que ouvi e que me despertou para o que considero hoje da maior importância: o lirismo e a delicadeza na interpretação.

Na medida em que fui avançando no estudo do violão e da música em geral deparei-me com a música de Baden Powell, que exerceu grande influência sobre meu trabalho, por sua expressividade e vigor rítmico. Posteriormente veio o refinamento de João Gilberto. Naquela época, muito sofisticado para a minha percepção musical. A música de ambos me foi apresentada por meu primeiro professor – Heber Alvim – em Divinópolis (MG). Ele foi o primeiro grande professor e orientador que tive em minha trajetória musical.

Por volta de 1981 comecei a compor. Inicialmente, de forma muito espontânea e sem critérios técnicos. Nessa ocasião ouvia com muita frequência a música de Johann Sebastian Bach, Ludwig Van Beethoven e com muita frequência Richard Wagner, compositor que ainda ouço muito.

Depois de alguns anos envolvido com a música destes grandes mestres, surgiu em minha vida o Jazz, por meio de Bill Evans, Miles Davis e Chet Baker que, depois de exaustivas audições e análise de suas concepções musicais, me reconduziram aos impressionistas. Principalmente Claude Debussy e Maurice Ravel, dando continuidade à minha formação, tendo como referência a música erudita.

Sempre dedicado ao estudo e à pesquisa, sem descuidar do meu lado de instrumentista, fui influenciado por grandes compositores brasileiros. Entre eles, Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Pixinguinha, Heitor Villa Lobos e Garoto. Com eles desenvolvi meu conceito de música e vi nascer em mim, um novo mundo repleto de lirismo e desafios técnicos. Esta foi uma fase importante, quando mergulhei totalmente no estudo do violão e da composição, passando horas a fio tocando choros e sambas e frequentando “rodas de choro” em Belo Horizonte.

Em 1983 iniciei-me na arte de fazer arranjos e produzir, naquela época, Long Plays. Com essa nova função em minha vida, pude experimentar tudo que estudei e me familiarizar com toda a família dos instrumentos, além de trabalhar com uma infinidade de músicos. Aprendi um pouco com cada um deles e tive o privilégio de me auto avaliar inúmeras vezes, evitando, a cada novo trabalho, os erros cometidos nos anteriores. A produção musical e os arranjos foram se tornando, aos poucos, minha atividade principal, alternando com os shows e as gravações de meus trabalhos autorais.

Durante esses anos, ampliei meus conhecimentos da técnica de gravação e mixagem de CDs e DVDs e da mixagem para cinema. Ingressei-me ainda em uma área sedutora – trilha sonora para cinema – tendo atuado como arranjador e orquestrador das trilhas dos filmes “Amor e cia” de Helvécio Ratton (1998) e “O tronco” de João Batista de Andrade (1999), além de trilhas para curtas e vídeos. Essas foram grandes oportunidades para que eu me aprofundasse nos estudos da técnica de gravação e mixagem da música para cinema, levando-me a estudar roteiro para teatro e cinema e a participar de cursos sobre a história, estilos e técnicas desta arte sedutora.

Hoje, lançando um olhar para o passado, percebo que minha atuação em todos estes setores da música me dão a certeza de estar realizando um grande sonho que, através do tempo, brotou, foi cultivado e floresceu no mais íntimo do meu ser.