Naturalidade… Sempre nos referimos a esse termo quando suspeitamos de anormalidade em qualquer setor da vida e buscamos a compreensão ou explicação para aquilo que vislumbramos como algo correto. Quantas vezes dizemos que não achamos algo natural? Mas viver naturalmente nos custa tão caro… Algumas circunstâncias nos confundem e as  dúvidas permanecem sempre as mesmas.

Às vezes recorro aos poetas, escritores e filósofos. Mas suspeito deles também. As palavras escritas são bonitas, pensadas e têm um grande poder de persuasão. Mas são registradas após o sentimento, em um momento de lembranças das experiências vividas in loco ou simplesmente intuídas com certo romantismo. Mesmo contendo muita sabedoria e verdade, elas desconsideram que, ao nascer, nos expomos a toda sorte de possibilidades na vida. Situações em que perder ou ganhar fazem parte de uma engrenagem que pode nos beneficiar da mesma forma. Direta ou indiretamente. Alguns dizem que ganhar é melhor. Concordo e me agrada o pensamento de um sábio positivista brasileiro: “- Eu sempre ganho. Se sou derrotado, eu ganhei a derrota”.

O querer no sentido da posse nos oprime e nos divide, em um mundo onde temos pouca oportunidade para o exercício da liberdade do não ter. Isso seria considerado uma derrota… O dia a dia de nossos valores são vividos à mercê de compromissos e responsabilidades adquiridos por imposição de uma escala comercial, onde, para alcançarmos determinadas coisas, dependemos de outras. Nesse emaranhado, a cada dia mais, escondemos nosso ser.

Temos muita informação, acesso imediato aos acontecimentos do mundo, toda a parafernália considerada necessária para a vida atual, mas a grande soma de possibilidades nunca canaliza o acesso em direção ao conhecimento e crescimento pessoal. Sabemos pouco da cordialidade, da delicadeza… O mundo lá fora avolumou-se e tenta nos consumir. Nossos atos confusos nos incutem certo convencimento da verdade.

Mas nos falta a naturalidade.

Foi deitado, ouvindo os pássaros e o som das águas em uma tarde fresca, tendo ao meu lado um sábio brasileiro, que tentei organizar os desenhos que as nuvens formavam. Antes de nomear cada quadro, por desistência delas, tinha que formular outro raciocínio e me preparar para novas formas. Sentada ao meu lado, a sabedoria sorrindo e contemplando o crepúsculo com serenidade. A alegria simples reinando naquela imensidão. A plenitude invadindo o peito. Entre nuvens, gracejos e compreensão dispersa, lembrei-me de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa:

“Quer pouco: terás tudo.
 Quer nada: serás livre.
 O mesmo amor que tenham
 Por nós, quer-nos, oprime-nos.”