Me disse que a perda do amor era de uma dor insuportável… Quis perguntar-lhe de que amor falava, mas não tive coragem. Pensei que seria melhor ouvir. Ouvir de olhos baixos. A dor alheia deve ser olhada com respeito, com nossa visão interior. Com a capacidade de sofrer no sofrimento dos outros… Ouvi frases confusas e me senti como quem ouve um “xeque-mate” e, decepcionado, pensa, analisando o tabuleiro de xadrez, que fizera tudo certo. Que não era possível o que estava acontecendo.

Nossa trajetória nessa vida é marcada por pequenos desacertos que, independente dos grandes acertos, adquirem uma proporção bem maior. Que pode ser referência para nosso avanço ou recuo na vida. Há algum tempo ouvi, de um amigo, uma triste história de um homem chamado Maurício. Creio que um grande arquiteto… Tivera uma vida de sucesso cujo desmoronamento se deu com um simples deslize. Segundo meu amigo, isso o levou à tentativa de suicídio.

Enquanto minha mente fervilhava tentando desvendar os caminhos da dúvida, me detive olhando seus olhos vermelhos e molhados. Sempre me considerei frio e equilibrado nas emoções. Exceto quando vejo alguém chorando. Em vários momentos de minha vida fui testado nesse quesito e meu coração também chorou de dor. Fui reprovado. Não sei consolar. Hoje eu sei olhar, sentir, engolir em seco e me calar… O tempo me ensinou a manter o olhar frio enquanto o coração, incendiado, segura suas emoções.

Diante de sua dor, percebendo sua mão erguida, pedinte de afago, quase me atrevi a toca-la. Quis repetir uma frase que alguém me disse, certa vez, sobre o amor. Mas fui salvo pela lembrança da dialética socrática que, a partir da ironia, seguida da maiêutica (arte do parto), nos leva à transcendência das ideias imediatas e nos conduz, pouco a pouco, à profundidade do raciocínio e do nascimento da verdade mais pura e autêntica. Essência verdadeira do espírito.

Olhei uma vez mais seu pranto e, abrindo a porta do café, saí à rua. Já era noite e uma suave chuva lavava as ruas e os pensamentos, talvez os sonhos, de um belo que já não se podia ver no horizonte. Um cão de rua lambia a água de uma poça que se formava. Se regozijava enquanto mirava a lua…Pensei, acelerando o passo: As ilusões nos invadem e nos levam à crença daquilo que aprendemos a chamar de amor. De verdade.

Texto inspirado em Millôr Fernandes:

“Na poça da rua
 o vira-lata
 lambe a lua”