No ano de 2015,  sob encomenda da Cisac (Confederação Internacional de Sociedades de  Autores e Compositores, cujo atual presidente é Jean Michel Jarre),  foi realizado, pela primeira vez, um estudo* sobre o mercado cultural e criativo, em nível mundial. Os resultados são surpreendentes. Com esse primeiro mapa das Indústrias Culturais e Criativas (ICC), um dado muito importante é que elas  geram receitas, em todo o mundo, que superam o setor de telecomunicações. Sendo que nas ICC os três maiores geradores de empregos são as Artes Visuais, Livros e Música, sucessivamente. Segundo os dados apurados, no total as ICC geram cerca de 30 milhões de empregos em todo o mundo, constituindo assim uma importante mola propulsora para a autonomia e auto sustentabilidade do setor. Tanto em países desenvolvidos, quanto naqueles emergentes.

País multicultural, com um talento especial para as artes, vivemos hoje, no Brasil, um caos na condução dos temas relacionados à cultura. Desde as esferas municipais, estaduais e federal, passamos por uma grande falta de criatividade na administração de políticas culturais e negócios relacionados à Indústria Cultural e Criativa. Infelizmente somos hoje vítimas de políticas inescrupulosas, guiadas por políticos, em sua maioria, comprometidos com interesses alheios às nossas necessidades e nem sempre preparados para a liderança em um país tão rico culturalmente.

Durante muitos anos a indústria cultural voltada para a música foi liderada pelas  gravadoras multinacionais e viveu com certa comodidade, obtendo excelentes resultados mercadológicos. Com o advento de novas tecnologias, modelos de negócio, outrora bem sucedidos, tornaram-se ineficientes diante da transformação radical pela qual passamos nos últimos tempos. Tanto pela falta ou imponência de uma mídia física, quanto pela fragmentação do mercado e mudança de paradigma. Por um acomodamento também. Passamos por uma era de investimentos em tendências, de forma desenfreada, nos esquecendo de um público formado em um período áureo de nossa MPB. De certa forma a indústria do entretenimento, junto com a falta de investimento em educação e cultura,  também foi responsável por uma mediocrização e banalização do conceito de Música Popular Brasileira. Com isso, avançamos no mundo dos negócios e do sucesso econômico. Por isso, passamos por um empobrecimento cultural que dizimou adeptos.

Com a grande evolução dos artistas independentes que já vinham, há alguns anos,
estudando e cultivando mercados alternativos, foram fortalecidos o que hoje chamamos de nichos de mercado. Por isso, mais uma tendência iniciada em décadas anteriores, de estatização da cultura, e com o empobrecimento dos modelos de negócio, inadequados para o acompanhamento de novas tendências, não desenvolvemos os  suportes necessários e auto renováveis para um bem sucedido mergulho nessa nova era da tecnologia. Depois de uma transição um pouco dolorosa, porém necessária, vislumbramos uma luz que poderá nos guiar nessa nova etapa da indústria, em favor da arte.

Mesmo sem o amparo de políticas que facilitem a evolução no campo das ICC, mais uma vez artistas, associações, empresários  e produtores da música, comprovam seu talento e  eficácia, tornando possível uma evolução que nos trará bons frutos. Fazendo jus à criatividade reconhecida, desse nosso Brasil de tanta diversidade cultural.

Enquanto as várias representações de setores artísticos e da indústria debatem estratégias para esse novo momento na história, trazido pelas inovações tecnológicas, temos que conviver com atitudes retrógradas e arcaicas em um ambiente político aculturado, influenciado e absorvido pelo poder. Capaz de impedir a evolução quase inevitável rumo ao crescimento de uma economia, comprovadamente eficaz, em nível mundial.

Ministério e Secretarias de Cultura sempre foram considerados  o “Patinho feio” em termos de orçamento e, ironicamente, sempre utilizados como um quinhão valoroso para a projeção nacional e trampolim político, devido à proximidade e popularidade consequente do envolvimento com artistas formadores de opinião, facilitadores do acesso ao povo. Lamentável perceber o desconhecimento (ou alheamento), desprezo e falta de estímulo desses setores pelos dados gerados em inúmeras pesquisas que apontam o setor cultural como o grande expoente de uma nova economia. Onde a criatividade encontra seu suporte na rentabilidade de seus produtos e na geração de empregos, nessa nova era que repudia, ou melhor, aprimora conceitos ultrapassados de modelos de negócio.

Em outras palavras, não reconhecem ou facilitam as grandes vantagens econômicas das Indústrias Culturais e Criativas que contribuem muito para a riqueza do país e mantêm ainda um vínculo muito forte com os artistas e todos os envolvidos nessa grande empresa que é a cultura. Que contribui significativamente para o desenvolvimento sustentável, centrado no ser e no fazer de uma luta diária.

Geraldo Vianna é compositor, violonista, arranjador e Produtor Musical
Atualmente é Diretor Secretário Geral da União Brasileira de Compositores (UBC)

* http://www.worldcreative.org