Ao sair de um café quase trombei com um teólogo que há muitos anos eu não via. Em outros tempos, conversávamos muito sobre teologia, filosofia e literatura e, às vezes, sobre música. Sobretudo Marin Marais, que naquela ocasião eu ouvia muito. Relembrando aquele breve encontro e uma pergunta feita por ele, sem resposta de minha parte, ao acordar nessa manhã, pus-me a pensar em minha condição humana.

Sempre me considerei muito distante do que se poderia chamar de “pessoa religiosa”. Não creio em dogmas e, embora admire várias religiões, não sou adepto de nenhuma   crença. Creio que nada além da boa vontade das pessoas, poderá mudar o mundo. Torná-lo melhor. Para mim, a vida é um eterno jogo onde, às vezes, avançamos cinco casas para, em seguida, voltarmos dez. Isso porque não se vive sozinho. Vivemos em sociedade. Esse pensamento me fez, há muitos anos, afastar de vez, de minha mente, a premissa do isolamento e da reclusão como uma forma de encontrar uma compreensão e aceitação maiores, sobre a condição humana. Sobre a minha condição nesse mundo, no âmbito da convivência no dia a dia.

Os agravos da vida, às vezes, nos levam à dúvida sobre o sentido da existência. Da busca e do avançar dos dias, onde adentramos rumo ao emaranhado de tudo que nos é ofertado como alternativa para viver bem. A relatividade dos erros formatados no desenrolar de nossa história, nos obrigando a assumir posições que nos levam a uma duplicidade de sentimentos, onde  figuramos ora como vítimas, ora como algozes. As angústias suplantando os sonhos em um eterno embate entre espírito e matéria. Merecer ou não merecer…

Alguns dizem que a grandeza de caráter está na capacidade de perdoar. Talvez seja essa a meta de cada um nesse mundo em que vivemos. Aprender a perdoar e calar os anseios e desejos de manifestar uma opinião expressa sobre todos os acontecimentos. Se entregar. Apenas se deixar viver.

Visitei um conhecido meu, em um hospital de Belo Horizonte. Estava recém operado, fragilizado e vulnerável. Vi seu corpo exposto, sangrando, à mercê de todos os obséquios para o seu restabelecimento. Vi em seu olhar, mantido quase sempre baixo, muita resignação protetora da vergonha e da fragilidade física. Senti um misto de tristeza e, ao mesmo tempo, de conforto. Conversei um pouco com ele, acompanhei todos os cuidados naquele instante e, despedindo-me, saí à rua. Caminhei um longo trecho sem destino, naquele crepúsculo estranho. A cada mendigo, criança solitária ou idoso vagando pela rua, eu lançava um olhar de tristeza e dúvida. Talvez de esperança também…

Porque o sofrimento, as intempéries e a solidão? Não sei. Dormi e acordei com a mesma pergunta sufocando meu pensamento. Entre um cochilo e outro, assistindo pela terceira vez a um mesmo filme,  acordei e acompanhei as legendas:

“Se você não está feliz, não é porque Deus não te quer bem. Muito pelo contrário. Pode ser o sinal de que Ele te ama. Ele mostra o amor, não te ajudando a evitar o sofrimento, mas te enviando sofrimento. Mantendo-te no sofrimento. O sofrimento te vincula a algo maior do que você mesmo. Maior do que a sua vontade. Te eleva acima do mundo para que veja o que existe além dele. Não devemos apenas superar os problemas que Ele nos envia. Precisamos considerá-los como presentes. Presentes mais preciosos do que a felicidade que queremos para nossa vida”.*

Virei para o canto e dormi novamente. Acordei pouco tempo depois e lembrei-me da pergunta de meu amigo teólogo:

– E você, continua não crendo em nada? – Sorri pensativo e respondi -:
– Continuo.

*Cavaleiro de copas – Escrito e dirigido por Terrence Malick