Caros amigos,

A viola “caipira” está em silêncio. Perdeu seu maior executante. Aquele que, entre poucos, brincava com sua fama de indomável. Em suas mãos a viola soluçava em lamentosos ponteados e ria como uma criança em mirabolantes acrobacias. A nossa tão vaidosa viola se rendia a seus caprichos e, domada por mãos experientes, sucumbia às suas brincadeiras.

Mas não imaginem que foi fácil este domínio. Custou muitas horas de sua vida, em dedicação exclusiva ao estudo do instrumento. Depois de muitos anos debruçado sobre seu corpo, sentindo-se preparado, dando adeus à sua querida Abaeté, lá foi ele pelo mundo a mostrar seu virtuosismo e a contar suas estórias. Tal qual o Fausto de Goethe, desafiou, no braço de sua viola, aqueles para quem nossa história, nossa gente e nossa música encontravam-se perdidas, esquecidas.

Contou-me certa vez que dera “certo” por ter ido para o lugar “errado” (Rio de Janeiro), cidade onde não havia àquela época, espaço para a viola. A partir dalí conheceu o mundo. A viola, até então instrumento típico do matuto, vestiu terno e gravata e arrebatou o grande público nos maiores teatros do país e exterior. Agora está em silêncio…

Conheci RENATO ANDRADE em 1982 em Divinópolis (MG). Um amigo comum (Dacir Quadros) me convidou para assistí-lo em um teatro da cidade. Habituado aos desafios, Renato perguntou-me logo: “Se você é violonista, tem de tocar para mim “Recuerdos de La Alhambra” de Francisco Tárrega. Prontamente atendi a

seu pedido. Isto, de certa forma, selou uma amizade “mineira” entre nós. Daquelas em que um olha de longe para o outro e quando fitado, desvia o olhar. Nos encontramos muito pouco, mas sempre havia uma empatia nas conversas. Conversas engraçadas, sempre conduzidas pelo seu bom humor. Para mim ele sempre foi, além de grande violeiro, um grande humorista, conhecedor de nossos hábitos e costumes sertanejos.

Em 2002, com muita felicidade, fui convidado para produzir seu CD (acredito que o último de sua carreira): “Enfia a viola no saco – Lapa discos”. Talvez este tenha sido o momento mais feliz em minha carreira de produtor. Pois pude compartilhar, no estúdio, de sua alegria, bom humor e amor à música e ao instrumento. Fui contagiado por sua alegria ao gravar a faixa “Lembrando a Espanha” numa primeira execução. Saindo da cabine de gravação, ele, festejando, dizia ser o maior. Realmente o maior… .

Para mim ele, ao levar a viola às salas de concerto no Brasil, está como o Segóvia para o violão no mundo todo.

No entanto, agora sua viola está em silêncio. Mas sua música jamais será esquecida; suas estórias ainda irão nos fazer rir e ter a certeza de que vale a pena viver o “pacto da vida”. Quem sabe, nos empenhando e dedicando com amor à nossa querida música brasileira e ao nosso instrumento, como ele o fez, possamos ainda, um dia, encontrá-lo numa encruzilhada qualquer e, num desafio, tentar roubar-lhe um pouco de seu virtuosismo e matreirice?

Enquanto isso, posso ouví-lo tocando sua viola “Rio abaixo”, rumo ao descanso eterno, onde irá se encontrar com tantos outros que do “sonho de viver” da música, fizeram sua vida. Já posso imaginar a confusão causada no encontro dele com os grandes mestres da viola que, eu sei, ansiosamente o aguardam para novas lições.

Aliás, seu encontro com Tião Carreiro vai dar uma confusão!!!…

Feliz ano novo para todos!!! VIVA RENATO ANDRADE!!!