Um dos maiores conhecedores do jazz e da música instrumental brasileira, o jornalista e crítico de música José Domingos Raffaelli, conseguiu unir o conhecimento histórico/musical à sensibilidade de ouvinte. Tornou-se ao longo dos anos, referência para músicos e admiradores da música instrumental e cultivou uma legião de admiradores no Brasil e exterior. Conheça um pouco de sua historia, iniciação no jazz e impressões sobre a música de nosso tempo.

GV – Você é considerado um grande conhecedor de jazz. Como se deu este contato e envolvimento com o gênero?

JDR – Comecei a ouvir jazz ainda menino, lá pelos 8 ou 9 anos. Meus pais tinham uma pequena coleção de discos, a maioria de ópera (era o gênero favorito deles), além de dois da orquestra do maestro Paul Whiteman. Eram estes os únicos que me agradavam e eu os ouvia à exaustão quando a vitrola estava desocupada, para desgosto dos meus pais, que os consideravam horríveis. Naturalmente eu não entendia nada do que tocavam, mas aquele som alegre e ritmado, com muito balanço, a par das músicas me agradarem muito, tudo contribuiu para eu ser inoculado pelo micróbio do jazz. Daí em diante, comecei a ouvir todos os programas de música americana no rádio e aos poucos comecei a familiarizar-me com os músicos e cantores americanos. Mais tarde, assistindo os filmes musicais com orquestras e cantores americanos, fui vendo/ouvindo vários daqueles músicos/vocalistas que me encantavam tanto e traziam tanta felicidade à minha vida. Mais adiante, com 14 ou 15 anos, tinha minha aparelhagem de som e começava a montar minha discoteca. Quando comecei a trabalhar, aos 17 anos, gastava quase todo meu salário em discos, para tristeza de meus pais. Meu gosto e interesse pelo jazz levou-me a estudar saxofone com o pai do Paulo Moura – tudo o que queria era tentar tocar jazz , o que, evidentemente, não se aprende de uma hora para outra. Apesar das minhas limitações, consegui alguns progressos, mas tendo de trabalhar de dia e completar os estudos à noite, não sobrava tempo para o sax. Comprando e ouvindo discos continuamente permitiu-me conhecer inúmeros músicos, conjuntos e orquestras de jazz. A partir dos 17/18 anos passei a fazer anotações enquanto ouvia, escrevendo minhas impressões sobre a música, os solos e tudo o mais. Isso estimulou o desejo de escrever sobre música, o que me levou ao jornalismo. A essa altura, apesar de trabalhar e estudar, toda minha vida girava em torno da música. Foi uma colossal surpresa para meus pais ao saberem que eu era pago por escrever sobre jazz, algo totalmente inimaginável para eles! Com o tempo, paralelamente ao jazz, convenci meu editor no Jornal do Brasil a escrever também sobre música instrumental brasileira criativa, nada de pop ou rock. O resto, é fácil concluir, foi continuar a ouvir e escrever sobre jazz. Com o tempo, ampliei minha área de ação colaborando também para revistas, publicações estrangeiras, discografias de jazz feitas no exterior, além de correspondente brasileiro em várias revistas de jazz americanas e européias. Também redigi programas para a TV e produzi/apresentei programas de rádio em várias emissoras cariocas. Enfim, paro por aqui para que esta entrevista não se transforme em biografia.

GV – Você acha que o jazz feito hoje tem a mesma força daquele que consagrou Miles Davis, John Contrane, Bill Evans? O que mudou? De que forma a evolução técnica e tecnológica influenciou o músico atual para melhor e para pior?

JDR – O jazz de hoje pulsa muito forte, talvez ainda mais forte que antes devido ao grande impulso que ganhou em todo o mundo a partir dos anos 50/60 como atração em festivais que se realizam na maioria dos continentes. Entretanto, o jazz sofreu um baque muito sério a partir da implantação do rock e principalmente com o aparecimento dos Beatles. Isto porque o rock passou a ser a música da juventude americana, caindo tremendamente o interesse pelo jazz. Inúmeros músicos perderam trabalho e mudaram de profissão. Outros, como Miles Davis, Wayne Shorter, Chuck Mangione, George Duke, Herbie Hancock, Joe Zawinul, Tony Williams e Chick Corea, trataram de aderir à fórmula baseada na nova linguagem rock-pop conhecida como fusion. O sucesso destes e outros músicos na nova amálgama musical incentivou a grande maioria de jovens instrumentistas a seguirem o mesmo caminho, sobrevindo uma pausa algo prolongada no interesse pelo jazz. Com esta estagnação, o jazz perdeu uma boa fatia da sua renovação de valores, só voltando a ganhar o interesse dos jovens depois que Wynton Marsalis, aos 20 anos, despontou como o novo grande astro do estilo, sendo um exemplo aos então iniciantes de que era possível tocar jazz e ganhar dinheiro. Essa guinada trouxe ao jazz uma plêiade de novos valores que não cessam de aparecer a cada dia. Para ter uma idéia de como o jazz expandiu-se, na última vez que estive em New York, estavam listados 127 clubes de jazz no semanário Village Voice. É evidente que há muitos anos não surge um músico original da estatura de um Charlie Parker, Duke Ellington, Bud Powell, Art Tatum, Dizzy Gillespie, Lester Young, Thelonious Monk, Coleman Hawkins, Benny Goodman, Benny Carter, Dexter Gordon, Fats Navarro, Clifford Brown, Bill Evans e.John Coltrane, entre outros, mas esses foram gênios e não acredito que tão cedo apareçam gênios como eles. Em compensação, houve uma enorme evolução técnica e tecnológica que influenciou e ajudou em muito os músicos de jazz e de outros estilos. Com o grande sucesso do jazz e os inúmeros festivais do gênero em quase todo o mundo, a maioria das universidades americanas criaram departamentos de jazz comandados por músicos profissionais de renome. Além delas, as afamadas escolas de jazz Berklee, Juillard, Manhattan, Guitar Institute of Tecnology e outras implantaram métodos modernos para o ensino do jazz. Anteriormente, o candidato a músico de jazz estudava com professor particular ou aprendia a tocar de ouvido acompanhando os discos. Com os novos métodos de ensino encontrando disponíveis toda sorte de publicações com songbooks, métodos para todos os instrumentos de autoria de renomados jazzmen e professores, além de todo tipo de partituras pela internet, os jovens aprendem em um ano o que antigamente demorava cinco anos, um salto gigantesco em relação a um passado não tão remoto. Essa facilidade estimula ainda mais os jovens que desejam aprender. A tecnologia moderna avançou enormemente, principalmente os equipamentos de gravação, com mesas de som abrindo dezenas de canais, permitindo aos músicos refazerem determinados solos ou passagens em uníssono sem interferir no que permanece para a edição final da gravação. Anteriormente, qualquer erro redundava no reinício da gravação, que, além do desgaste natural dos músicos, onerava sensivelmente os custos dos estúdios. Além de refazer o que quiser, possibilita ao músico acrescentar tudo que quiser à gravação que inicialmente julgavam ser definitiva. Em contrapartida, esses recursos de fazer e refazer o que se queira dão ao produto final um sentido de falta de espontaneidade, que o saudoso pianista Roland Hanna comentou ser “uma grande mentira porque no palco eles não podem fazer o que realizaram no estúdio”.

GV – O jazz caminha num processo constante de evolução. Você acredita que o mesmo aconteça com a música brasileira?

JDR – Sim, como o jazz e outros estilos, a música brasileira também está em constante evolução. Referindo-me especificamente à música instrumental, que acredito seja a razão da sua indagação, sem dúvida alguma tem conhecido grande expansão através do surgimento cada vez maior de novos talentos. Nossa música é riquíssima e os músicos brasileiros são abençoados, temos fartura de talentos com capacidade inventiva para absorver e desenvolver suas virtudes. Nas quatro últimas décadas surgiram centenas, talvez milhares de instrumentistas em quase todos os estados do país, que mostram atualização, evolução técnica e musical acentuadas. Apesar de a música instrumental não receber da mídia a exposição e o destaque que merece – com exceções -, nossos músicos lutam obstinadamente por aquilo em que acreditam, e vem conquistando briosamente seu espaço e o reconhecimento por parte de um público fiel que não pára de crescer e, mais importante ainda, por parte de algumas organizações culturais que apóiam, promovem e divulgam seus trabalhos.

GV – Você vem todos os anos a Belo Horizonte participar como jurado do Prêmio BDMG Instrumental. Como você vê a música instrumental feita em Minas atualmente? Você percebe propostas novas em termos de linguagem e estilo?

JDR – Tive a grande sorte de participar, como jurado, das cinco edições do Prêmio BDMG-Instrumental, em Belo Horizonte. Sem sombra de dúvida, é o projeto de música instrumental mais importante em todo Brasil. É uma iniciativa plenamente vitoriosa que merece o apoio de todos. Graças à capacidade dos seus organizadores, aos poucos esse projeto vem estendendo suas ramificações a outros centros, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, e, segundo sua direção, tudo indica que seu crescimento gradual continuará a expandir-se. Minha presença nesse evento ensejou um contato muito mais amplo com a música instrumental feita em Minas. Já conhecia muitos músicos mineiros através de gravações, concertos, mas o BDMG-Instrumental abriu um leque de opções para ouvir ao vivo inúmeros instrumentistas talentosos que, em outras circunstâncias, dificilmente teria oportunidade de conhecer, avaliar e apreciar. Sim, em termos de linguagem e estilo, vislumbrei indícios de propostas novas, como você alude, sugeridos nos caminhos de alguns músicos. Desde quando comecei a ouvir músicos mineiros percebi que eles possuem uma identidade própria para a harmonia, além de uma sensibilidade melódica que os distingue dos demais instrumentistas nacionais. Não tenho conhecimento da música tradicional mineira, porém, após cinco anos como jurado do BDMG-Instrumental, arrisco afirmar que os instrumentistas mineiros provavelmente sejam influenciados, direta ou indiretamente, pela música ancestral da sua terra do Século XIX e início do Século XX. Certamente houve uma grande evolução, mas para falar sobre a forma peculiar de harmonizar dos mineiros, divaguei sobre possibilidades que ignoro e me baseio em meras suposições, que podem ser completamente inexatas. Nesse aspecto, quero desculpar-me, nem sei se respondi à sua indagação corretamente, mas afirmo com plena convicção que os músicos da sua terra diferem dos demais em sensibilidade e harmonização, como acentuei antes. Gostaria de citar nomes, mas, para evitar o risco de omitir músicos importantes, prefiro deixar como está.

GV – E a música brasileira? Podemos ver o choro tentando se reerguer através de jovens grandes talentos, novos compositores procurando uma identidade própria e, ao mesmo tempo, artistas sem compromisso com a criação e evolução da arte usufruindo os benefícios e glamour que a fama e o sucesso lhes dão, em troca da estagnação e “negociação” com o sistema e mercado. O que podemos esperar de tudo isto? O que será de nossa música no futuro?

JDR – O choro vem atravessando um período de grande afirmação e sucesso, revelando talentos em profusão. No Rio de Janeiro, onde moro, há um grande movimento de chorões com inúmeros locais noturnos apresentando grupos do estilo, sempre com casas cheias. O mesmo ocorre em relação ao samba, principalmente com a reativação noturna do bairro da Lapa e adjacências, onde dezenas de bares e casas noturnas apresentam conjuntos de samba e choro. A propósito, recentemente surgiu o conjunto de samba Toque de Arte, que julgo ser a grande revelação do estilo; é um quarteto integrado por instrumentistas e cantores que interpretam repertório tradicional e moderno com o maior bom gosto, afinação absoluta, entusiasmo contagiante e refinamento que conferem ao grupo uma posição de relevo no cenário do samba carioca. Por outro lado, infelizmente temos o reverso da medalha com a grande maioria. Como você acentuou, são os “artistas sem compromisso com a criação e evolução da arte usufruindo os benefícios e glamour que a fama e o sucesso lhes dão, em troca da estagnação e “negociação” com o sistema e mercado.” A busca desenfreada da fama e da parada de sucessos é o objetivo dessa grande maioria, cuja “música”, se assim a ela podemos nos referir, é impingida aos borbotões diária e irritantemente pelos meios de comunicação sustentados pela força do famigerado jabá, com o qual gravadoras, artistas e empresários manipulam “a preferência e o gosto” do grande público. É essa avassaladora sub-música que considero a verdadeira poluição sonora que azucrina nossos ouvidos e nossa paciência. Entretanto, enquanto houver músicos dedicados, talentosos e criativos, sempre somos reconfortados com música de qualidade e bom gosto, a preferida dos que sabem verdadeiramente separar a arte do lixo musical.

GV – Você poderia indicar quatro Cds que considera indispensáveis para quem deseja entender o espírito do jazz e da música brasileira?

JDR – Pergunta virtualmente impossível de responder por exigir grande poder de síntese em tão poucos exemplos dentro de um universo infinito de gravações. Correndo o grande risco de deixar de lado uma infinidade de obras-primas que fizeram a grandeza do jazz e da música brasileira, aí vão minhas indicações:

Música brasileira:
1. Moacir Santos – Coisas //// (Sergio Mendes – Você não ouviu nada ainda)
2. Erlon Chaves – Sabadabadá //// (Victor Assis Brasil Quinteto).
3. Hélio Delmiro – Emotiva //// (Zimbo Trio – O primeiro LP do conjunto)
4. Luiz Eça & Cordas //// (Idriss Boudrioua & Alexandre Carvalho – Joy Spring)

Jazz:
1. Louis Armstrong – The Hot Fives and Hot Sevens
2. Duke Ellington – The Webster/Blanton Band
3. Charlie Parker – The Complete Dial and Savoy Recordings
4. The Clifford Brown Blue Note and Pacific Jazz Recordings