Herbert von Karajan, está entre os maiores maestros da história da música clássica. Sempre rigoroso em sua forma de preparar as obras interpretadas em público ou gravadas sob sua regência, Karajan despertou grande interesse de público e crítica especializada, bem como de produtores, nos últimos anos de sua vida, por seu pioneirismo e rigor técnico na produção de vídeos e participação na revolução músico-tecnológica do século 20.

Suas gravações junto à Orquestra Filarmônica de Berlim ainda hoje despertam interesse por seu esmero e cuidado com a interpretação, técnica de gravação do áudio e edição de imagens. Com o surgimento do DVD, podemos, hoje, apreciar grande número de obras lançadas originalmente em Laser disc e vídeo cassete.

Morreu em sua casa, perto de Salzburg, em 16 de julho de 1989 aos 81 anos de idade, com 60 anos de profissão.

Abaixo transcrevo trechos do ensaio de Richard Osborne, fruto de entrevistas formais e informais ao longo de 12 anos, onde Karajan fala de regentes, orquestras, cantores e elogia o violoncelista Antônio Menezes.

Regentes e orquestras

HVK – “… Certa vez fui convidado a reger um concerto em Manheim e o pianista convidado era Frederic Lamond. Do programa constava a sinfonia no. 04 De Brahms, e no ensaio Lamond me disse: – Sabe de uma coisa? Eu conheci Brahms; ouvi-o reger esta peça -.

É fácil imaginar o efeito que aquilo provocou em mim. Estava apavorado. Depois houve uma recepção. Lamond estava conversando com algumas pessoas, e quando estava de saída dirigiu-se a mim e disse:

– Mas sabe de uma coisa? Não foi tão lindo como poderia se imaginar -.

Sem dúvida, naquela época algumas coisas eram muito boas, mas suspeito que não toleraríamos algumas delas, se pudéssemos ouvi-las hoje em dia.”

Sobre Willem Mengelberg

HVK – “Convidei-o para ir a Aachen reger a orquestra. Preparei-a cuidadosamente, em particular para as piadas e discursos que ele costumava fazer no palco, e disse a todos que deviam se mostrar divertidos com aquilo. Quando ele chegou, perguntou: – Quantas pessoas há na orquestra? – Disseram-lhe que havia 108. – Então vou repetir tudo 108 vezes, porque ninguém nunca ouve… –

Os músicos conseguiram rir daquilo na hora exata. Ele era um grande disciplinador. No começo do ensaio ele viu um dos violinistas tocando de um modo desleixado, com o braço do instrumento apontando para o chão. – E o senhor, meu amigo, para quem está tocando? Por favor, toque a música na direção correta! – .”

Sobre orquestras

HVK – “Trabalhar com uma orquestra ruim pode ser uma ótima lição. Se o regente conseguir torna-la tolerável, isto é valioso. E como até as boas orquestras cometem erros sempre nos mesmos lugares, o regente adquire muita experiência. Além do mais, há regentes muito talentosos que não conseguem nada com uma orquestra realmente excepcional. São ótimos com orquestras boas ou muito boas, mas com uma orquestra excepcionalmente boa parece que ficam com as duas mãos atadas. É uma espécie de maldição.”

Sobre ajuda quando se está começando

HVK – “Procurei ajuda e nunca a encontrei. Sabe de uma coisa? As pessoas eram distantes, quase como deuses. Eu estava com 45 anos quando falei com Toscanini e aí ele me atacou porque fiz Pelléas et Mélisande de Debussy no Scala, em francês. Ele disse: – O senhor também poderia ter feito O trovador em alemão -.

Nós rimos. Mas é verdade, não houve ajuda e em muitos casos houve oposição. …Sei que existe uma teoria segundo a qual as grandes qualidades acabam se revelando no final. Mas é possível poupar muita dor de cabeça porque há vezes em que se pode dizer a alguém: Neste ponto, você está tomando a direção errada.”

Furtwängler

HVK – “Dizem que não nos dávamos bem, mas o fato é que mal nos víamos. Eu ia assistir aos ensaios dele sempre que podia. Depois da guerra, Legge nos reuniu. Furtwängler estava muito mal-humorado, mas os músicos gostam de fazer piadas e contar histórias e a noite foi um grande sucesso. No entanto eu tinha a impressão de que ele não era um homem feliz.”

Ópera italiana

HVK – “Quando Toscanini levou Lucia di Lammermoor para Viena com a companhia do Scala, foi uma revelação. Naquela ocasião, percebi que nenhuma música é vulgar, a menos que seja executada de maneira vulgar. Quando eu estava em Ulm, onde a temporada durava apenas de setembro a abril, pude viajar bastante; fui a Milão ouvir o verdadeiro canto italiano. Meu conhecimento do Falstaff de Verdi veio de Toscanini. Não havia ensaio em Viena ou Salzburg ao qual eu não estivesse presente. Creio que ouvi uns 30. De Toscanini aprendi o fraseado e as palavras; eram sempre cantores italianos, coisa inaudita na Alemanha na época. Acho que jamais abri a partitura. Ela estava nos meus ouvidos, eu simplesmente a conhecia.”

Filarmônica de Viena

HVK – “Havia na orquestra um músico que tocava contrabaixo e conhecia Toscanini; esse músico disse à orquestra: – Toscanini vem reger. Temos de fazer tudo com a máxima precisão e beleza de tom. Por favor, cheguem meia hora antes, sentem-se e preparem-se. Se fizermos isso, será um sucesso -.

… como se sabe, aqui na Áustria temos a loteria nacional. Os músicos escolheram na partitura os números em que Toscanini havia perdido a paciência e apostaram neles na loteria. E ganharam um prêmio grande, que hoje em dia corresponderia ao preço de um carro de passeio. Quando soube daquilo, Toscanini deu-lhes a mesma quantia, duplicando o prêmio. … Toscanini não era uma má pessoa; era tão dedicado musicalmente e se disciplinava tanto que simplesmente não conseguia entender o fato de alguém poder tocar uma nota errada ou fora do tempo. E talvez de tempos em tempos ficasse frustrado com aquilo que conseguia, ou não, em sua música. Sempre achei que nunca ficou satisfeito com sua interpretação de La mer; estava em busca de certas texturas que nunca conseguiu realmente obter.”

Victor de Sabata

HVK – “Mas o meu verdadeiro herói era Victor de Sabata. Um dia perguntei a ele: – O que o senhor sente quando está regendo? – E ele disse: – Tenho um milhão de notas na mente e cada uma que não é perfeita me deixa louco -.

Ele sofria quando regia. E tenho de dizer que também passei por isso. DeSabata talvez tenha sido a única pessoa que jamais disse palavra alguma contra outro regente. Viveu numa época muito difícil; queriam que voltasse para o Scala, mas sempre havia a possibilidade de Toscanini retornar.”

Cantores

Maria Callas

HVK – “Tratada da maneira certa, ela era muito fácil. Estava sempre preparada para o máximo e quando achava que havia recebido bom conselho aceitava-o imediatamente. Mas às vezes transformava-se em diva. Lembro-me de uma vez em que eu estava fazendo uma experiência com um véu que havia ficado 100 anos no Scala e estava cheio de pó. Ela era míope, não conseguia enxergar nem a platéia. Chegou para o ensaio, desceu a ponte sobre a orquestra, onde eu estava regendo, e disse ao gerente: – Se este véu ficar aqui eu não canto -. Com isso, simplesmente deixei que passasse e disse: – Ah, minha cara, acontece que estou procurando um elemento novo… –; meia hora depois, o gerente voltou e me disse que ela estava sentada lá em cima chorando. Então eu disse: – Maria, estou fazendo uma experiência, e quando digo experiência quero dizer que estou procurando ver como a coisa se apresenta. Mas não sei se vou usá-la. -. Usamos o véu, claro, mas então ela viu o porque. Eu jamais pensaria em aborrecer alguém, a menos que houvesse alguma idéia positiva que precisássemos experimentar.

… Quando ela absorvia uma peça, eu dizia: – Maria, você pode virar de costas para mim e cantar, porque sei que não vai sair do compasso, um mínimo que seja -.”

“Tenho de dizer que lamento profundamente, profundamente mesmo, não ter conseguido persuadi-la a filmar a Tosca. Eu disse a ela que já tínhamos a fita gravada e ela apenas teria de comparecer e representar o papel. Na época, eu não conhecia Onassis (embora depois tenhamos ficado grandes amigos), mas ele me convidou para conversarmos. Só que Maria começou a se enfurecer e insistiu em ver tudo de antemão. E Onassis disse: – Sou rico, mas não o suficiente para pagar tudo isto! -. Continuei a pedir a ela que representasse, mas ela estava com medo. Havia abandonado a coisa e estava fora dela.”

José Carreras

HVK – “ … eu passaria o vídeo do Requiem de Verdi para você. Será que Caruso cantava melhor o Ingemisco? Carreras teve esta doença terrível, mas está cheio de esperança. Por tudo que me contou, foi uma experiência dolorosa, mas agora ele estabeleceu uma fundação para ajudar outros doentes, e isso lhe dá muita satisfação.É uma pessoa adorável e, como ainda é jovem, todos nós esperamos que comece nova carreira agora.”

Fundamentos musicais

HVK – “… ninguém pode dizer que conhece uma partitura, por mais que a tenha na cabeça, antes de tê-la experimentado na orquestra. No momento em que a pessoa se põe à frente da orquestra, choca-se com a inércia da matéria. Não estou falando em preguiça. Criar um som implica um esforço corporal enorme. Para que existem os ensaios? O regente dirá: – Para eu poder comunicar as minhas idéias à orquestra -. A orquestra dirá: – Para ele poder aprender o repertório às nossas custas -. E o produtor dirá: – Porque estou pagando tudo e insisto nos ensaios -.

Mas existe um sentido para o ensaio que é o processo de chegar a um acordo com uma grande resistência. Sabemos que Michelangelo encarava o mármore que estava trabalhando como se fosse um inimigo pessoal. … Os músicos aprendem comigo e eu também aprendo muito com eles. E só depois de sentir e absorver aquela pressão que me vem através deles consigo sentir também que ali está o começo de uma interpretação.”

Sobre a Sétima Sinfonia de Beethoven

HVK – “… Quando eu era jovem e regia na Alemanha, era comum reger o finale muito mais devagar do que se ouve hoje em dia. Eu sabia que aquilo não estava certo, mas não podia sair da tradição devido à dificuldade de interpretar o conteúdo interior da música. Não sei expressar bem isto, mas é como se a música não se prestasse a um tempo mais rápido. Depois, as duas coisas acabaram se reunindo: o tempo certo e o conteúdo. Às vezes, principalmente com música romântica, digo à orquestra: – Agora toquem tudo como já tocaram, mas toquem num compasso 4/4. O que estão fazendo é sentir a música tão profundamente que estão tocando num compasso 5/4. Agora sintam a mesma intensidade, mas façam o contrário.”

Sobre ritmo

HVK – “É a única coisa que me faz perder a paciência. Consigo tolerar uma nota errada vindo da orquestra, mas quando tudo vai ficando mais rápido ou mais lento, não consigo aceitar. Nesse ponto, acho que muitos professores deveriam ser presos por confundir os jovens.É um dos motivos por que estabeleci minhas fundações. Queria devolver alguma coisa em troca do grande interesse e da grande felicidade que tive pelo fato de ser capaz de produzir música para as pessoas. Mas me perguntei: – Que posso fazer? – E, vendo bem, parece-me que a instrução musical é uma das coisas mais negligenciadas da nossa sociedade atual. Se ninguém ensina aos alunos as disciplinas básicas do ritmo, as coisas ficam impossíveis.”

Sobre ser testado por um computador

HVK – “Aquilo foi em Dortmund, no instituto científico de lá. Eles têm um piano, aliás não muito bom, ligado a um computador que mede a distância entre as notas. Na mudança do terceiro para o quarto dedo, por exemplo, parece que alguns pianistas são mais rápidos e outros mais lentos. Mas o que me fizeram foi dar-me um metrônomo e um tema para tocar em valores de notas cada vez mais rápidos: tresquiálteras, colcheias, semicolcheias e assim por diante. Sei que quando uma orquestra vê uma porção de notas pretas, normalmente começa a acelerar. Acho que fiz um erro de 2 ou 3 por cento no teste todo. – Parece que Her Von Karajan tem um computador no cérebro -. Mas não é um computador. Eu treinei o cérebro com metrônomos. E ainda faço teste em mim mesmo. Consigo andar em 120 e cantar em 150; e se me pedirem para cantar agora em 105, vou conseguir. Se erro sinto no corpo todo. E na orquestra, se um solo entra mais devagar ou mais depressa, sinto imediatamente, pois me incomoda.”

Sobre Bruckner

HVK – “ … os tempo das partituras originais de Bruckner são muito mais simples do que aparecem em algumas edições. Geralmente Bruckner quer uma ligeira modificação de tempo e escreve langsamer (mais lento), mas às vezes os intérpretes caem para até 30% do tempo! Não, é muito mais sutil do que isto; é como a valsa vienense. Ninguém jamais tentou editar uma valsa vienense, pois todas aquelas inflexões de tempo teriam um aspecto terrível na partitura. No entanto, só ultimamente fui capaz de conseguir praticamente um único pulso na obra toda. Leva anos para se conseguir isso”.

“… Meu pai lembrava bem dos concertos de Bruckner. Ouviu o Te Deum de Bruckner. Durante os espetáculos a platéia foi saindo aos poucos, batendo a porta atrás de si. No intervalo só havia metade da audiência e no fim ele estava praticamente sozinho. Mas a música de Bruckner é primordial. Talvez seja preciso ir à igreja de St. Florian para entender por que a música é como é, com tantas pausas e uma amplitude tão grande.”

“… Muitos regentes (e devo dizer que Furtwängler às vezes estava entre eles) criam crescendos enormes e depois deles a música desaba. É como um homem que escala correndo uma enorme montanha e depois simplesmente cai do alto. … Quando a pessoa está no alto, tem de saber que está no alto! Desfruta a vista de lá de cima e é estimulado por ela.

O fim também precisa ser sentido como tal. Isso ocorre na obra de Bruckner, onde as codas podem ficar cada vez mais lentas. Costumo dizer à orquestra que não é esse o modo de fazer as coisas; é preciso pensar nos últimos compassos como se tratasse de uma fermata, uma fermata que dura o tempo todo da coda. Sustentamos o metrônomo. Senão a coisa não se sustenta.”

“… Cada regente tem uma taxa de pulsação diferente da dos outros, e geralmente o tempo de cada um, é matematicamente proporcional a essa taxa. A música de Bach está quase sempre no ritmo de uma pulsação. Mais uma vez, sei disso devido à longa experiência que tive com a ioga. Sei como é o meu batimento cardíaco: sinto-o em cada parte de mim. E se entro na pulsação no início de uma música sinto uma grande alegria física.

… Por este motivo fiquei tão preocupado quando estávamos fazendo o novo conjunto das sinfonias de Beethoven em 1977. Depois das gravações, fazíamos sessões de mixagem. Levei algumas fitas para Saint-Moritz e quando as ouvi, pensei: – Meu Deus, isto está bem errado”. Depois percebi. Acontece que Saint-Moritz é um lugar mais alto e o coração bate mais depressa. A música me pareceu errada, mas só lá”.

“… Para ensaiar bem é preciso ter uma mente como um microscópio. Não é uma questão pessoal. O regente não vai ajudar os músicos por que se procurar fazer isso eles vão esperar sua ajuda na hora da execução verdadeira. … Há uma opinião geral de que a maior arte na regência é saber quando não se deve reger.”

Sobre Mascagni

Lembro-me de estar no Scala de Milão durante a guerra. Estavam apresentando Lámico Fritz e Mascagni estava no ensaio. Durante o famoso intermezzo o maestro perguntou a Mascagni se ele gostaria de reger um pouco. Na época, ele sentia-se velho e frustrado. Estava doente e mancava; do mesmo modo que eu agora, ele também tinha dificuldade em subir ao pódio. Mas finalmente conseguiu chegar lá e ergueu a batuta. E… pois bem, a música começou, e de repente houve uma formidável explosão de som que ninguém poderia estar preparado para ouvir. Jamais me esquecerei daquele momento. Foi incrível.”

Sobre Dom Quixote e Antônio Menezes

“… A peça mostra a compreensão profunda que Strauss tem da natureza e, mais uma vez, apresenta-o como o grande mestre do epílogo musical. Na minha opinião o maior de todos os epílogos vem no final de Dom Quixote, quando Quixote diz: – Lutei, cometi erros, mas vivi a minha vida da melhor maneira que pude de acordo com o mundo como o vejo, e agora… -.

Acho isso profundamente comovente. É uma obra à qual preciso voltar constantemente. A nossa última gravação foi com o violoncelista Antonio Menezes, que admiro muito devido à grande beleza de linha que conseguiu trazer para o epílogo. Mas gravei várias vezes: com Fournier e Rostropovitch ….”

Resumo do original de Richard Osborne: Conversando com Karajan (Editora Siciliano).