Com cerca de 50 discos gravados ao longo de sua carreira, Waldir Silva conta com entusiasmo, aos 75 anos, sua trajetória na música. Fala de tempos já esquecidos na memória de nossos meios de comunicação e questiona a postura das rádios da atualidade. Conheça aqui um pouco deste grande músico que construiu uma carreira bem sucedida, sem jamais abandonar seu jeito simples de viver e fazer música.

GV – Como e quando você entrou para a Rádio Inconfidência?

WS – Meu contrato foi assinado em fevereiro de 1951, pelo diretor artístico da época, Agnaldo Rabelo. Fui convidado para integrar um dos regionais da Rádio. Já havia um que era chamado de regional A, liderado pelo Juvenal Dias na flauta. Quando o Genaro Cruz, que era compadre do Juscelino Kubitscheck foi para a Rádio, ele me convidou para participar do outro Regional, conhecido como regional B. Este era meu sonho. Então eu aceitei na hora. Lá eu fiquei até 1973. Com a mudança da Rádio, da Feira de Amostra para o edifício Dantez, acabaram com quase toda a programação ao vivo. Aos poucos, com a invasão do que nós chamávamos de “enlatados”, que eram os discos das grandes gravadoras, todos os artistas foram dispensados, ou remanejados nas Secretarias e órgãos do governo, claro, aqueles que pertenciam ao funcionalismo público. Como eu era funcionário dos correios, fiz um acordo com a Rádio.

GV – Na Rádio Inconfidência, que artistas você acompanhou com o regional?

WS – A Rádio Inconfidência tinha vários programas de auditório. Como não havia televisão os artistas aconteciam através do rádio, em programas “ao vivo”. Na programação o principal programa era o “Só para mulheres”, realizado aos sábados de 14:00h às 18:00h, onde hoje é a rodoviária. Havia um auditório para 1.500 pessoas sentadas e um grande palco. Ali nós acompanhamos vários artistas de sucesso na época, praticamente de improviso, pois eles não traziam partituras. Trabalhamos várias vezes com a Emilinha Borba, Marlene, Ciro Monteiro, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Grande Otelo, Vicente Celestino, Dircinha e Linda Batista, e muitos outros. Tínhamos também a função de acompanhar calouros. Era moda, na década de 1950, as rádios terem programas de calouros. Hoje eu acho que devo muito a estes programas, pois o calouro ensaiava uma coisa e cantava outra. Como você não podia parar, tinha que “decifrar” as intenções dele e continuar. Você tinha que “quebrar” com ele, “correr” com ele, parar…

GV – Como era a programação da Rádio Inconfidência naquela época?

WS – O sucesso era dos programas de auditório. Por isto havia vários. Domingo de manhã tinha “A hora do Pinduca”, que era infantil, com Elias Salomé. Ele tinha também às quintas-feiras o programa “Escola de rádio”, com calouros mais qualificados. Havia também muitos programas de estúdio, ao vivo. No andar dois e meio, isto mesmo, nem dois nem três, tinha um auditório onde aconteciam programas com orquestras. A rádio tinha umas três orquestras que eram regidas por vários maestros, sempre ao vivo, com ou sem platéia. Na programação constavam também programas de humor, futebol…

GV – Comparando o rádio daqueles tempos com o atual, o que você sente que mudou?

WS – É aquela estória do menino que acredita em Papai Noel; ele quer ganhar o brinquedo e não sabe o que vem. Por isto exercita a imaginação. O povo ficava louco para conhecer os artistas. O Ary Barroso, por exemplo, famoso por seu programa de rádio no Rio de Janeiro, vinha à Rádio Inconfidência e ficava duas horas contando casos. O povo adorava. Com a chegada da televisão acabou tudo. Como fazer programas de rádio ao vivo e levar as pessoas? Basicamente o que mudou foi isto. Hoje o rádio já não tem aquela graça. Mas, para mim, ainda é o maior veículo de divulgação. Principalmente no setor musical. Antigamente era diferente, pois os programadores tinham autonomia para escolher o que seria tocado. Como divulgador de grandes gravadoras eu levava os lançamentos, eles próprios escolhiam a música que tinha a ver com o perfil da rádio e rodavam. Embora a gravadora, às vezes forçasse a barra na escolha do que ia tocar, os programadores tinham poder para optar. Com o passar do tempo, criaram a tal da planilha, que nas grandes empresas era aprovada pela diretoria nacional. Por exemplo, há planilhas de programação que são aprovadas pela central, às vezes em São Paulo, e vão para o resto do Brasil. A programação passou a ser centralizada e coordenada por um grupo pequeno.

GV – Você se sente valorizado pelas rádios atuais?

WS – Não. Por uma questão de ética e reconhecimento da importância de nossa verdadeira música brasileira, todos os órgãos de comunicação no Brasil, tanto o rádio, jornais , televisão, têm que evoluir. Acho que deveria ter espaço e mais respeito por aquilo que foi a nossa raiz. Nós não podemos nunca desprezar Jacob do Bandolim, por sua obra. Não podemos desprezar um Villa Lobos, Waldir Azevedo, Abel Ferreira, Pixinguinha…

GV – Você acha que as rádios, no Brasil, não têm memória?

WS – Não, não têm. Só valorizam o que é sucesso hoje. E, infelizmente, a qualidade da música que se toca exaustivamente nas rádios hoje é… sei lá. Há muita restrição, é muito duvidosa. Em Belo Horizonte há muitas emissoras. Deve haver uns cinco programas que tocam a música brasileira daqueles a quem devemos tudo.

GV – Você tocou com os maiores nomes da MPB e foi produzido por mestres como Altamiro Carrilho e Hervê Cordovil, entre outros. O fato de ter gravado vários discos de boleros e ter ganhado disco de ouro por alguns, despertou algum tipo de preconceito por parte de rádios, músicos…

WS – O problema não é o estilo de música. No Brasil não se toca a música instrumental em rádios, de forma natural, como parte da programação. Existe uma barreira intransponível. As pessoas que estão na direção de emissoras de rádio e televisão, são consideradas, por elas mesmas, gênios. Então o “cara” ou é gênio, ou está querendo ser. Ele acha que música instrumental não dá “Ibope”. O que é “Ibope”? Faturamento. Eu ligo o rádio e ouço durante uma semana. Me diga a porcentagem de música instrumental rodada neste período… Será que nós não temos grandes discos de instrumental e grandes músicos no Brasil? Podemos contar nos dedos das mãos os programas instrumentais existentes em todo o Brasil. São poucos e específicos. Não faz parte da programação normal, vem sempre como um extra, uma concessão na programação.

GV – Como você vê a música instrumental feita em Minas Gerais?

WS – É surpreendente a nova geração do chorinho. Tenho tido surpresas agradabilíssimas. Os meninos já têm habilidade de músicos maduros, mas está havendo um exagero na valorização da técnica. Há uma preocupação muito grande com a velocidade, esquecendo, às vezes, a qualidade. Aquela história de quem toca mais rápido…

GV – Você acha que o virtuosismo impressiona mais que a música?

WS – Impressiona a quem está olhando, não a quem está ouvindo. Para mim tocar bem é tocar bonito, com personalidade. A música tem que ser simples no resultado.

GV – Mas você não acha bonito o músico poder se expressar da forma que considera correta?

WS – Exatamente. Mas, nós que temos uma ótima música, não aceitamos uma deturpação da harmonia, melodia, em função do exibicionismo.

GV – Fale de seus instrumentistas preferidos no conjunto regional…

WS – No pandeiro o Jorginho (Época de ouro). O Dino 7 cordas nos baixos, é o professor. No bandolim há o Ronaldo, também do Época de Ouro, e o Hamilton de Holanda. Este é um senhor bandolim. Temos também o Armandinho com uma execução impecável. Todos, acima de tudo, grandes músicos.

GV – Cite uma pessoa que influenciou seu caminho na música…

WS – Waldir Azevedo. Pelo som que ele tirava, pela execução e até mesmo pelas circunstâncias da época. Em 1951, tocando na Rádio Inconfidência, eu fazia muitos shows. O cavaquinho estourou no Brasil com as músicas Delicado, Brasileirinho e Pedacinhos do céu, todas do Waldir Azevedo. O Delicado foi gravado em mais de 40 países. Então as pessoas pediam para eu tocar estas músicas. Eu não era solista, era acompanhador. Tive que começar a estudar para atender aos pedidos. Ia para o terraço da Rádio Inconfidência e ficava até à meia noite estudando. Compus o telegrama musical porque quando eu fui gravar, o Altamiro Carrilho me disse que no Brasil ninguém acreditava em músico, a não ser em Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim. Que eu não teria chance em gravadora. Daí, compus uma música diferente utilizando o código Morse. Na Copacabana encontrei o maestro Hervê Cordovil que também foi telegrafista e se encantou com a música, facilitando a gravação. Resumindo: no Brasil, todos nós que tocamos cavaquinho, começamos pelo Waldir Azevedo.

GV – Quantos discos você gravou até hoje?

WS – Entre 78 rotações, LPs e CDs, mais as coletâneas, em torno de 50 discos. O primeiro foi em 1961. Ao longo de minha carreira gravei pela Copacabana, RCA Victor, Ariola, Odeon, Bemol, Eldorado e Movieplay.

GV – Cite alguns CDs que você considera importantes para quem cultiva o gênero chorinho e seresta…

WS – 1 – Jair Rodrigues cantando serestas, com arranjos de Luiz Roberto. 2 – Augusto Calheiros (vários). 3 – Nelson Gonçalves (vários). 4 – Orlando Silva (todos). 5 – Waldir Azevedo (vários).