Nessa edição, conversamos com o jornalista Valério Fabris, atual Presidente da Rádio Inconfidência. Em conversa franca sobre o momento atual da música em nosso estado, ele fala da história da Rádio Inconfidência, seu compromisso com a classe musical e, sem se esquivar, aborda questões polêmicas e aponta para novas perspectivas para o cenário musical mineiro. Confiram!

GV – A que você atribui a demora de tantos anos para se concluir o que, para músicos e críticos de música, sempre foi considerado óbvio: que a música instrumental mineira tem potencial, não só qualitativo, mas também apelo técnico e estético para se projetar e se manter na mídia nacional?

VF – Quem não se deu conta de que, já há alguns anos, a música instrumental mineira está no primeiro plano da música brasileira é porque ignora muito mais do que isso. A começar por uma história iniciada em 1936, portanto há 75 anos, que é a história da Rádio Inconfidência. Na época de ouro do rádio, a Inconfidência AM (ondas médias, de alcance nacional) contou, até o início dos anos 1960, com três orquestras e com dois conjuntos regionais. Eram as orquestras de Dança, a de Salão e a Melódica, conduzidas, respectivamente, por José Torres, Mário Pastore e Moacir Portes, todos eles professores do Conservatório Mineiro de Música, que, por sua vez, foi criado, em 1925, pelo então governador Francisco Mello Vianna. A Inconfidência difundiu, para Minas e para o Brasil, os talentos de instrumentistas que, antes, estavam confinados ao ambiente do Conservatório de Música ou que eram autodidatas. A lista dos instrumentistas contratados pela Inconfidência é enorme: o trompetista Djalma Pimenta, o pianista Mauro Coura Macedo, o flautista Juvenal Dias, o clarinetista Ophir Mendes, o violão 7 cordas Bento de Oliveira, o violão 6 cordas Sanica, o violão tenor Wilsinho, o pandeirista Mário Vaz de Melo, o acordeonista Genário Cruz, o cavaquinista Waldir Silva, o grande maestro Sergio Magnani, o pianista José Ferreira. Porque a intitulada Orquestra de Dança era uma big band; a Orquestra de Salão era uma stage band; e a Orquestra Melódica era uma banda sinfônica, que acompanhava cantores líricos, também contratados pela Inconfidência, como a soprano Maria Lúcia Godoy, o barítono Aimoré Tomanini e o tenor João Decimo Breccia. Veio a televisão, e as emissoras de rádio, como a Nacional, do Rio, deixaram de ser o palco dos grandes espetáculos. Em 1979, a Inconfidência abriu, também, um canal FM (frequência modulada, de alcance metropolitano), que difundiu as vozes e os instrumentistas de Minas, como nenhuma outra FM do país fez e faz. Se alguém quiser saber a importância da Inconfidência FM para os instrumentistas é só perguntar a Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso, Pachoal Meirelles, Toninho Horta, Juarez Moreira, Célio Balona, para ficar em alguns poucos nomes. O programa do Tutti Maravilha está no ar há 25 anos, apresentando, a cada santo dia, no curso de um quarto de século, os novos nomes, os discos e as agendas dos músicos, com entrevistas ao vivo. Há sete anos, a Inconfidência FM mantém diariamente no ar o Faixa Instrumental, criado, programado e produzido por Paulo Bastos. Todos os domingos, às sete da manhã, Chico Lobo dedica uma hora à viola e à música de raiz. Todas as semanas, o professor Paulo Sérgio Malheiros apresenta, nos canais AM e FM, um programa exclusivamente com compositores e instrumentistas da música erudita brasileira. Nos últimos três, tem ido no ar, ao meio-dia, de segunda a sexta, o Viamundo, conduzido por Daniella Zupo, que é uma revista de cultura, em que se destaca a música instrumental. Que outra rádio faz isso, em qualquer lugar do país, mesmo em São Paulo e no Rio de Janeiro? Quem ainda não percebeu que Minas é uma potência na música instrumental brasileira é ignorante total da história da música colonial mineira, do Conservatório de Música, da Rádio Inconfidência. Certamente, não sabe nada sobre Minas. A maior virtude da internet e dos sites de relacionamento é deixar os tolos escancaradamente à mostra. E o idiota maior é o que não se dá conta da sua idiotia. O parvo não sabe que Minas tem mais da metade do patrimônio arquitetônico histórico do país, que é a terceira força econômica, que tem 11 universidades federais, é o principal berço dos grandes rios brasileiros, é o quarto estado em área, o segundo estado em população, o primeiro em número de municípios e em extensão de rodovias. Quando a Inconfidência coloca em prática um conjunto de ações para dar ainda maior visibilidade à música instrumental, não age apenas no sentido de reforçar a programação, mas de criar no seu site um playlist de apresentação dos instrumentistas mineiros aos 60 mil visitantes mensais que o acessam. De interagir, ainda mais intensamente, com o BDMG Instrumental, com o programa Noturno, da Rede Minas. De incrementar o noticiário das apresentações dos instrumentistas, de apoiar os grandes músicos que se oferecem como escada para os jovens talentos, a exemplo do que o mundialmente reconhecido Toninho Horta realiza há vários anos, de forma abnegada e incansável. Ou seja, a Inconfidência abre uma janela ainda maior em favor da música instrumental. Trata-se de um reposicionamento da Inconfidência, em face do agravamento, cada vez mais alargado e aprofundado, da pulverização nas comunicações, com a vertiginosa aceleração das tecnologias digitais, que multiplicam as ofertas e fracionam, em espaços cada vez mais curtos, o tempo de permanência de qualquer mensagem. A Inconfidência se reposiciona, de tempos em tempos, porque a vitória de hoje não é garantia para o sucesso de amanhã. A qualidade da gestão, com melhorias continuadas, faz a diferença. Há seis anos, a emissora recebeu do governo de Minas um investimento da ordem de R$ 6 milhões, com vistas à sua recuperação e modernização, nos canais AM e FM, nos aspectos físico, organizacional e tecnológico. Dentro de no máximo três anos será inaugurada a Estação da Cultura, em Belo Horizonte, que abrigará as novas instalações da Rádio Inconfidência e da Rede Minas, além de uma sala de concertos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Colocar foco na música instrumental, com ações sinérgicas em todo o seu ambiente, é coerente com a mudança planetária que se processa nas áreas da comunicação, da cultura e do entretenimento, que se deslocam do mercado de massa para os mercados de nichos. E qual é, hoje, o principal nicho da música mineira no cenário nacional? Outra realidade desta era da tecnologia e do conhecimento é a radicalização do individualismo. Desde meados de 2011, a Inconfidência vem colocando em prática um conjunto de ações em torno da música instrumental, tendo sempre em mente o coletivo, e não o individual, sem dar trela à formação de guetos, panelas, feudos. O ambiente da música instrumental mineira é de muita solidariedade e cooperação, sobretudo entre os artistas de maior prestígio, como você, Geraldo, como Nivaldo Ornelas, Célio Balona, Gilvan de Oliveira, Wagner Tiso, Juarez Moreira, Marcus Viana, Toninho Horta, Túlio Mourão, Marco Antônio Guimarães e todo o pessoal do UAKTI. Há a nova safra, que vem com esse espírito, como Warley Henrique, Marcos Flávio, Thiago Delegado, Pablo Dias, Gabriel Guedes, Sérgio Danilo, Marcos Frederico. A Inconfidência não está inventando nada; só está colocando foco, com sinergia e sentido de urgência, tendo em vista as mutações desta dita pós-modernidade. Mas não é apenas na música instrumental que a Inconfidência se reposiciona. O plano de ação da Inconfidência AM é ainda mais vasto e minucioso. Foram feitas mais de trinta parcerias com instituições cidadãs, tornando a Inconfidência AM, sem dúvida alguma, a melhor emissora pública de ondas médias, em termos nacionais. É a rádio da responsabilidade social, da inclusão, da cidadania.

GV – Até onde o gosto pessoal de uma equipe de programação, os modismos e suas adesões, além do preconceito quanto à qualidade artística podem travar o processo de veiculação e popularização do gênero instrumental nas rádios?

VF – Uma equipe, digna desse nome, só funciona se tiver um objetivo comum, compartilhado. O primeiro deles deve ser a obsessiva busca dos mais altos padrões de qualidade. Isso vale para qualquer área, seja a industrial, a comercial, a de serviços. No caso da rádio, temos de conciliar os mais elevados padrões de qualidade com a máxima audiência possível, dentro da perspectiva da produção cultural de ontem, de hoje e de manhã. Em relação à música, temos de sempre trazer de volta ao palco os personagens como Villa-Lobos, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Ary Barroso, Radamés Gnatalli, Dorival Caymmi, Moacyr Santos, Tom Jobim, Dolores Duram. É como dizia Ivan Lessa: de vinte em vinte anos, o Brasil se esquece do que aconteceu nos últimos vinte anos. Há o reacionário do seu tempo, o narcisista, para quem só existe o momento de agora. E há o reacionário pregresso, que fecha os olhos ao presente, para não enxergar que o novo sempre vem. A batalha contra a intermitente amnésia nacional e contra o passadismo encardido é permanente. E a Inconfidência, nos seus dois canais, AM e FM, prima por esse equilíbrio entre os grandes mestres do passado e as revelações do presente. Recentemente, Leny Andrade esteve na rádio, e, disse muito claramente que a sua voz era sempre ouvida na Inconfidência, o que não tem acontecido nem mesmo nas rádios da grande maioria das capitais brasileiras, nem mesmo no Sul, que é a região com os melhores indicadores socioeconômicos do país. Quem não reconhece isso, não tem a menor ideia de quem foi Humberto Mauro, e nem passa pela sua cabeça quem é Marcos Coelho Benjamim. A vida é assim, aqui e alhures. Assim sempre foi, assim sempre será.

GV – Qualidade musical, principalmente na música instrumental, é algo, até certo ponto, subjetivo. Dependendo muito da cultura e experiência prévia de quem avalia. Que critérios serão utilizados na escala de programação do “Minas Instrumental” da Radio Inconfidência?

VF – A rádio privilegia o instrumental que seja melódico, harmonioso, equilibrado, acessível, que tenha uma polifonia clara. A rotina do programador é exaustiva, tanto quanto a de um provador de café, apenas com a diferença de que um usa o sentido da audição, o outro se vale do paladar. Chamo a atenção para mais um detalhe fundamental, que é o tempo da música. Deve ficar, no máximo, na faixa dos cinco minutos, porque a programação é feita com sequência de três músicas, somando, no limite, 15 minutos. Vivemos a era das músicas autorais e de tempo longo. O músico, sobretudo o novo, facilita a vida do programador quando, na idealização e confecção do CD, inclui, entre os autorais, pelo menos um tema conhecido. O violonista e guitarrista Celso Moreira diz que o instrumentista deve estabelecer uma ponte com o grande público, por meio de músicas conhecidas. Relatou sua recente experiência de, em um quarteto, se apresentar na abertura do show de Zizi Possi, no SESC Palladium, em homenagem a Chico Buarque. Contou que o teatro estava lotado, e que os aplausos foram tão ou mais intensos do que os dirigidos à parte principal do espetáculo, que era a apresentação da cantora Zizi Possi. “Tocamos as músicas do Chico, todas muito conhecidas”, disse-me Celso Moreira, que se apresentou com André Limão, na bateria, Christiano Caldas, nos teclados, Milton Ramos, no baixo, e, como músico convidado, com o saxofonista Chico Amaral. Tenho conversado com vários instrumentistas de alta qualidade, como Flávio Henrique, Weber Lopes, Toninho Horta e Warley Henrique. Há unanimidade em relação a essas ponderações, no que se refere ao encaixe da música instrumental no meio rádio. Há um espaço para o instrumental mais abstrato, que acentua o solo e o improviso, que é o horário diário dos aficionados, o Faixa Instrumental.

GV – A música mineira tem uma tradição de grandes instrumentistas/ /compositores. Desde Chiquito Braga, Paulo Horta, Helvius Vilela, Laércio Villar, Nivaldo Ornelas, Esdra Ferreira – Neném, Toninho Horta, Juarez Moreira, André Dequech e tantos outros… Como você vê a cena instrumental mineira atual e os novos talentos? Há uma continuação estética embasada pela qualidade técnica?

VF – Prefiro responder com base no depoimento dos artistas de fora que transitam o tempo todo na Inconfidência, como a já citada Leny Andrade, ou como Leo Gandelman, ou ainda como o meu conterrâneo, o pianista Marcos Resende, de Cachoeiro de Itapemirim, que está há anos radicado no Rio, e é amigo de Nivaldo Ornelas. Belo Horizonte é, hoje, a capital da música instrumental brasileira, pela qualidade, quantidade e diversidade de gêneros. Não consigo lhe afirmar se um ouvido de fora, ao escutar um desses jovens talentos, como Breno Mendonça, Warley Henrique ou Daniela Rennó, dirá que aquele som vem de uma estética mineira. Prefiro acreditar que houve uma soma de contribuições e de sedimentações, especialmente ao longo dos últimos cinquenta anos, desde o Berimbau, Helvius Vilela, Paulo Braga, Chiquito Braga, a bossa nova de Pacífico Mascarenhas, o Clube da Esquina, e Marco Antônio Araújo, o Som Imaginário, Marilton Borges, Paulo Horta. O que salta aos olhos são a solidariedade e o intercâmbio que caracterizam, marcadamente, este meio século da composição musical mineira, de cunho não erudito, mas muitas vezes com um grau de sofisticação e de refinamento que beira o erudito. A questão não é só programar, ainda mais, a música instrumental dentro dos canais da Inconfidência, entre elas a da viola. Estamos falando de um conjunto de ações, como playlist, as interações com o Noturno e com o BDMG Instrumental, as notícias de agenda, as entrevistas, o apoio a projetos musicais cooperativos. Citei a viola, seja ela qualificada como caipira ou como urbana, não importa, porque, quando a gente ouve um Fernando Sodré ou um Rodrigo Delage, só para ficar nesses dois ilustres talentos, dá para imaginar que arrancariam aplausos de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Não sou musicista, e assim realmente não tenho respaldo acadêmico para discorrer sobre a evolução estética, empreendendo uma anamnese acerca do organismo musical mineiro. O que constatei ao longo de minha vida, nas cidades em que morei, como Rio, São Paulo, Brasília, Curitiba e Florianópolis, é que Minas, sobretudo a partir de outubro de 1967, quando apareceu na tela do Brasil inteiro um rapazola chamado Milton Nascimento, cantando Travessia, injetou ainda mais arte na música brasileira, algo verdadeiramente profuso, rico, sofisticado e encantador. A percepção, de toda a área artística da Rádio Inconfidência, comandada pelo competentíssimo Luís Marcelo, é que, nessa evolução do talento mineiro, o momento mais esplendoroso fica por conta da música instrumental.

GV – O que os instrumentistas podem esperar da Rádio Inconfidência quanto à execução do projeto e continuação das ações?

VF – Há antecedentes históricos de descontinuidade das ações, sobretudo quando se lembra do trauma que foi a tentativa de se desvestir a Brasileiríssima, para transformá-la em Popularíssima. Mas a Inconfidência está, hoje, muito mais institucionalizada. Não havia, até 2004, uma regra para a contratação de funcionários. Foi instituído o concurso público. A emissora está absolutamente em dia com todos os seus compromissos, sejam os financeiros ou os legais. Tanto assim é que a Inconfidência está tão delimitada pelas regras da boa gestão pública que mantém parcerias de divulgação do Ministério Público de Minas Gerais, do Tribunal de Contas, da Defensoria Pública (a de Minas e a da União). A Inconfidência AM está na plenitude dos seus 100 kW de potência, o que devolveu, em março de 2010, a sua abrangência nacional. O Trem Caipira, a Hora do Fazendeiro e os musicais da emissora são ouvidos em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, no Vale do Cariri, no Ceará, e em Alta Floresta, no extremo norte de Mato Grosso. A Inconfidência tem sido regida, sobretudo nos últimos sete anos, pelo critério da impessoalidade, inteiramente despolitizada. Caso haja outra tentativa de se desviar a emissora de suas finalidades, politizando-a, os órgãos de controle da administração pública, assim como os artistas e produtores de cultura, agirão prontamente, não tenho dúvida. E essa proteção da opinião pública vale para os conteúdos de ambos os canais, o AM e o FM.

GV – Do ponto de vista de estratégias de marketing cultural e difusão, o que você acha que falta ao músico mineiro, de um modo geral?

VF – Tendo residido em várias cidades, como jornalista da imprensa nacional, posso garantir, sem receito de errar, que a articulação dos músicos mineiros, em Belo Horizonte, é muito melhor do que se observa em cidade como Brasília, Florianópolis, Curitiba e o Rio, ainda que o ambiente cultural do Rio seja sempre efervescente. O que se vê em Belo Horizonte é uma estrutura muito mais permanente e confiável, que não se move a reboque das circunstâncias. Um exemplo disso, é o BDMG Instrumental, que vai para o seu décimo primeiro ano. Além do mais, há muitos movimentos novos, que injetam mais energia à cultura em geral e à música em particular. Há o Circuito Cultural Praça da Liberdade, o SESC Palladium, a revitalização do Cine Brasil, que volta à cena como um estupendo espaço de múltiplos usos, há, enfim, uma série de festivais, como o da Savassi, o I Love Jazz, o Natura Musical, o novo teatro do Minas Tênis Clube. E o Palácio das Artes continua sendo a grande casa de espetáculos de Minas. Além disso, está a caminho a Estação da Cultura, um empreendimento muito arrojado. Agora falo como jornalista, tendo nas costas 45 anos de profissão, iniciada em Cachoeiro de Itapemirim, aos 17 anos de idade. Acho que é preciso haver uma divulgação melhor dos músicos, e isso depende, em primeiro lugar, deles próprios, em um trabalho junto às redações, com o apoio de material informativo adequado, com vistas a subsidiar a imprensa. A própria Rádio Inconfidência está à disposição para, de alguma forma, orientá-los nesse sentido.

GV – Quais suas expectativas quanto ao futuro desse projeto?

VF – Estou muito confiante em que alcançaremos o objetivo, que é o de fazer com que a música instrumental mineira tenha o seu imenso valor percebido por uma parcela ainda maior do público e pela mídia, em meio a esta era do efêmero, da pulverização, da multiplicação de escolhas e da vertiginosa ascensão da competitividade predatória. O desafio é a Inconfidência oferecer uma expressiva contribuição para que o mercado da música instrumental, na região metropolitana de Belo Horizonte e em Minas, dê sustentabilidade ao artista desse precioso nicho. A população da metrópole equivale a de países desenvolvidos, como a Dinamarca. A população de Minas supera a do Chile. A Rádio Inconfidência está, assim, mais uma vez, atualizando a sua histórica trajetória, de 75 anos. A ênfase ainda maior à música instrumental deve-se ao fato de que as vozes são muito bem atendidas pela emissora, nos seus dois canais. E, além disso, a música instrumental é de aceitação menos imediata do que a vocal. O mesmo se dá com a gravura, no campo das artes plásticas; vide Lívio Abramo e Marcello Grasmann. Ou com a poesia, no campo da literatura; vide Drummond e João Cabral. São as artes do refinamento máximo. O que nos inspira, na Inconfidência, é o desejo de alargar o espaço da criação artística. Que os músicos mineiros tenham toda a liberdade e todos os meios para que continuem melhorando a vida de cada cidadão, desde a mais tenra idade, com o melhor da sua sensibilidade, da sua técnica, do seu extenuante trabalho, da sua arte. A grande obra do artista dispensa qualquer discurso e panfleto. É o que nos dizem Bach ou Jobim.

Valério Fabris é jornalista e, atualmente, Presidente da Rádio Inconfidência. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim (ES), reside em Belo Horizonte desde 1995. Morou, também, em várias cidades: Rio, São Paulo, Brasília, Vitória, Florianópolis e Curitiba. Trabalhou, nacionalmente, na revista Veja e na Gazeta Mercantil. Foi repórter e editor de jornais capixabas, entrevistador de programa de televisão e comentarista de rádio.