O chamado “caminho do meio”, tido muitas vezes como meta em nossa vida, quase sempre se torna distante quando tentamos nos aproximar dele por uma única via. Roberto Corrêa percorreu o caminho acadêmico do estudo da Física e, paralelamente, se aventurou pelas veredas que o conduziram às fantásticas histórias que povoam a arte dos violeiros do sertão. Da disputa entre a razão e os mistérios que compõem o universo desses homens, surgiu um grande instrumentista, dotado de sensibilidade musical e conhecimento histórico. Considerado um dos principais responsáveis pela didática do ensino da “viola caipira” nos tempos atuais, ele transpôs os mistérios e crenças que envolvem o instrumento e tornou-se, ao longo dos anos, seu principal representante. Foi buscar na sua origem o dom e a sina que o conduziriam à elaboração de conceitos sócio-culturais. Com acuidade científica na pesquisa, documentação e valorização de nossa música, ele nos aponta um novo caminho onde podemos perceber a possibilidade de encontrarmos na neutralidade, desprovida de preconceitos, a plenitude e riqueza cultural de nosso país.

GV – Como foi seu início na música e a descoberta da viola caipira?

RC – Comecei na música pelo violão. Por volta dos dez anos de idade, em Campina Verde, Minas Gerais, minha mãe colocou-me para estudar com José da Conceição, um violonista seresteiro que tocava muito, era um virtuoso do instrumento. Ele usava uma metodologia parecida com a tablatura e funcionava bem. Descobri a viola já em Brasília, em 1977, quando cursava Física na Universidade de Brasília e estava iniciando meus estudos no violão clássico.

GV – Como foi para você, graduar-se em Física, que se baseia em dados cientificamente comprováveis e, ao mesmo tempo, lidar com o universo do violeiro, suas crenças e superstições? Até que ponto a Física ajudou ou dificultou a compreensão de tema tão complexo como o sertão e seus mistérios?

RC – A física tem ajudado muito na elaboração de conceitos e na metodologia que eu e minha esposa (também formada em física) desenvolvemos para pesquisa de campo em cultura popular. Curiosamente, quando cursava física, na pesquisa sobre a viola, tive o apoio do CNPq. Este apoio foi fundamental para as viagens. Como não havia nenhum método de ensino de viola, fazia-se necessário procurar violeiros tradicionais para aprender a linguagem técnica e conhecer o repertório tradicional. Acabei me aprofundando muito mais, atraído pelo imaginário e pela religiosidade que sustentava a prática da viola.

GV – Em seu livro “A arte de pontear a viola”, você expõe sua opinião sobre “Música Caipira” e classifica-a como “… um elo com a tradição, com o meio rural e seus códigos subjetivos”. Como você vê a atual música chamada de “Sertaneja” com seus temas previsíveis, repetitivos e uma abordagem estereotipada e planejada? Você chamaria essa música de caipira?

RC – O jornalista e divulgador cultural Cornélio Pires, no final da década de 20, mais precisamente em 1929, na capital de São Paulo inaugura, em iniciativa independente, um novo fazer musical para a música rural. Cornélio registra pela primeira vez, em discos 78rpm (uma música de cada lado), a música do Brasil Central. Ele levou cantadores do interior paulista para gravarem na fábrica de discos da Colúmbia músicas que retratavam a realidade cultural caipira. Devido às condições técnicas (microfones direcionais e a duração máxima permitida para cada lado do disco, em torno de três minutos) os cantadores tiveram de se adequar e assim acabaram por dar início a uma nova forma de expressão musical para esse tipo de música. O dueto, assim como a viola, elementos musicais essenciais em praticamente todas as manifestações musicais coletivas, acabou por configurar a formação de duplas que logo passaram a se utilizar de pseudônimos para fácil identificação. Na década de 70 a viola praticamente foi deixada de lado, mas o dueto permaneceu como elemento importante até os dias de hoje. Ou seja, este novo “fazer musical” trouxe modificações substanciais na música, desvinculado-a dos rituais e celebrações da vida rural e, principalmente, nos músicos, que se tornaram artistas e o sucesso passou a ser o objetivo a ser alcançado por eles. Essa síntese histórica da música dita caipira revela que este “fazer musical” está diretamente ligado ao mercado. E, nesse universo, artistas de talento souberam expressar muito bem a música do sertão, assim como souberam expressar bem temas do cotidiano da vida urbana, dramas e paixões. Por outro lado, os interesses das grandes gravadoras, os jabás nas mídias e outras práticas nocivas à evolução da arte trouxeram para esse universo uma grande quantidade de música ruim. Penso que denominações como caipira, sertaneja, brega, raiz, entre outras, acabam estereotipando duplas que, historicamente, tiveram uma mesma origem. O dueto revela bem essa origem. Para finalizar, quero dizer que gosto muito de algumas músicas tidas como bregas, assim como de algumas tidas como caipiras.

GV – Há entre o músico de Blues e o violeiro brasileiro uma forte semelhança no que diz respeito ao “tocar bem”. Ambos são regidos, em sua formação, por desafios e pactos que, a meu ver, têm uma forte influência dos rituais africanos. Entretanto, como gênero musical o Blues influenciou diretamente o jazz, forma de música que se tornou conhecida no mundo todo e que está sempre em evolução. Num contexto musical nacional, como está a música de viola? Existe uma evolução em sua forma estrutural e linguagem harmônico/melódica moderna, que lhe seja própria?

RC – Na moderna música brasileira o que há de novo, no meu modo de entender, é a música que está sendo feita com a viola. O que aconteceu há séculos com o violão está acontecendo agora com a viola. Cada vez mais compositores e músicos de variadas tendências estão se dedicando ao instrumento. Há ainda grande oportunidade de se criar algo novo para a viola solo e mesmo para a viola com outras formações inclusive com orquestra. Neste ano estarei gravando o álbum “Viola de arame – composições brasileiras” com lançamento previsto na cidade de Belo Horizonte, para março de 2009. Esse projeto conta com o patrocínio da CEMIG e conterá músicas de compositores que, até a década de 80, compuseram especialmente para a viola: Jorge Antunes, Maurício Carrilho, Eustáquio Grillo, Paulo Belinatti, Antônio José Madureira, Marco Pereira e Theodoro Nogueira.

GV – Num plano mais amplo e menos fantástico, como você percebe, no dia-a-dia do violeiro do sertão, a abordagem do pacto com o demônio para se tocar bem? Você fez o pacto?

RC – A origem dessas histórias de pacto é o mistério do dom e a inveja de quem não o tem. Violeiros tradicionais afirmam que tocar viola é dom de Deus e quem não tem o dom, se quiser tocar, tem que fazer o pacto com o outro lado, que pode ser com o Demo ou com a alma de um violeiro já falecido. Eu tenho o dom e também a sina de ser violeiro. Quando dava início a minha carreira, vim a descobrir, por acaso, que era descendente de uma família de violeiros. Meu bisavô, na virada do século XIX para o XX, deslocou-se de Mato Grosso para Minas Gerais e ali se estabeleceu como fazendeiro. Enfim, encurtando a história, meu avô acabou sendo assassinado em 1937, em sua fazenda entre Prata e Campina Verde, aos 39 anos de idade, por conta de uma moda-de-viola que denunciava tramóias da política local. Meu pai estava com nove anos e não pôde aprender com o meu avô os segredos da viola. Outra versão para esse assassinato era que ele estava indo visitar uma amante, filha de um retireiro que morava em sua própria fazenda. Enfim, uma tragédia político/amorosa que marcou minha família e acabou interrompendo a continuidade da arte da viola. Descobri essa história quando ganhei de uma prima, no final da década de 80, o livro de conta corrente desse meu avô. Lá havia letras de 49 modas de viola, todas compostas por ele, inclusive a tal moda política. Hoje entendo que o foco instintivo de minhas pesquisas, além das técnicas, busca do imaginário e de reminiscências do passado, foi preencher dentro de mim este vão causado pela perda desse conhecimento que vinha sendo transmitido de geração para geração. Em outras palavras, eu buscava meu avô nos violeiros tradicionais que ia conhecendo. As estórias do tal pacto foram frutos deste esmiuçar, em cada violeiro que conhecia, memórias do passado. No capítulo “Do tocador” do meu livro A Arte de Pontear Viola, eu conto 13 estórias bem interessantes do tal pacto.

GV – Certa vez, durante uma gravação, perguntei ao violeiro Renato Andrade quem era, na opinião dele, o principal violeiro do Brasil. Ele respondeu enfaticamente: “Roberto Corrêa”. Perguntei-lhe por quê e ele me disse que você unia o conhecimento das origens com o conhecimento musical e domínio técnico. Qual a sua opinião sobre esses atributos que ele destacou em você, na formação de jovens violeiros?

RC – Fico muito lisonjeado com esta declaração de Renato Andrade. O que eu busquei nas minhas pesquisas Renato possuía instintivamente. Ele transitava com a maior naturalidade do ancestral para o contemporâneo. Renato foi o primeiro violeiro que levou a viola para os palcos de concerto do mundo e nos deixou um grande legado. Estamos vivendo uma era de informação que possibilita aos aprendizes de viola o fácil acesso ao conhecimento. A transmissão oral que, no passado, cumpria muito bem o seu papel de repasse, deu lugar a uma avalanche de ensinamentos e possibilidades de aprendizado. O talento e esses atributos citados por Renato são essenciais para quem quiser se destacar no universo dos violeiros.

GV – Seu novo CD “Antiqüera”, com a “Orquestra à base de corda”, de Curitiba, traz uma linguagem moderna que, curiosamente, dialoga com a tradição. O modalismo, por exemplo, é tratado de forma singela com muito bom gosto. Percebo, também, forte influência moura e árabe no tratamento de algumas músicas, além de uma relação muito forte com a Ibéria. Como foi para você, que já experimentou todos os gêneros possíveis em sua viola, dialogar com um grupo de características muito fortes em sua instrumentação e fazer frente com sua viola, considerando que a maioria das músicas foram magistralmente gravadas e executadas por você em outras situações?

RC – O diretor musical da Orquestra, João Egashira, já conhecia muito bem o meu trabalho e, mesmo assim, tivemos longas conversas sobre cada uma das músicas. Por outro lado, a formação da Orquestra com instrumentação característica (violões, bandolim, cavaco, rabeca, violino, piano, viola caipira e percussão) aliada ao grande conhecimento da música popular brasileira por parte de seus integrantes favoreceu aos arranjadores (Osiel Fonseca, Cláudio Menandro e João Egashira) uma leitura bem interessante de minhas composições. Eu fiquei muito feliz com o resultado. Posso dizer que foi um presente para mim. De repente, surge um olhar musical sobre minha música e que, quando me convidam para ser o solista, resultou em uma grande parceria.

GV – Como você vê o novo movimento de jovens em torno da viola no Brasil?

RC – Acho fantástico. A viola abre um canal com as nossas ancestralidades, com as nossas tradições. Muito já se fez e muito está por se fazer. Nas palavras de Guimarães Rosa “Sertão é o mundo das possibilidades”. Acho que a viola também é isso.

GV – Cite quatro músicas de estilos diferentes, que você considera fundamentais para aqueles que desejam explorar o universo da viola.

RC – Se me permite, prefiro citar nomes e alguns trabalhos em vez de músicas. Primeiras gravações da música rural do Brasil Central: – A turma caipira de Cornélio Pires (Zico Dias e Ferrinho, Mariano e Caçula, Arlindo Santana, Antonio Godoy e sua mulher, entre outros). Gravações de duplas caipiras antigas: – Zé Carreiro e Carreirinho, Raul Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho. Gravações de duplas caipiras atuais: – Zé Mulato e Cassiano, André e Andrade. Gravações de violeiros: – Renato Andrade, Almir Sater, Bambico, Zé Coco do Riachão, Zé do Rancho, Paulo Freire, entre outros. Livro-CD: – Viola instrumental brasileira (Partituras e músicas de violeiros tradicionais) Organização: Andréa Carneiro de Souza Violeiros: Edísio Caixto, Ferrolho da Viola, Milo da Viola, Nego de Venança, Seu manelim, Seu Minervino, Seu Olegário, Toninho da Viola, Valdão da Viola, Zé da Lelinha e Zé Padre. – A Arte de Pontear a Viola (Livro e metodologia de desenvolvimento técnico) Autor: Roberto Corrêa Livros: – Tocadores – Homem, Terra, Música e Cordas Autores: Lia Marchi, Juliana Saenger e Roberto Correa – Instrumentos Musicais Populares Portugueses Autor: Ernesto Veiga de Oliveira – Viola Campaniça, o outro alentejo Autor: José Alberto Sardinha