Conhecedor de nossa cultura e costumes, Paulo Freire é uma importante referência para nossa autêntica música de viola “caipira”. Defensor do estudo realizado “in loco”, ele freqüentou a universidade daqueles que fazem da sombra de frondosas mangueiras e das noitadas em Folias de Reis, sua classe. Com clareza e responsabilidade ele fala dos rumos e tendências de seu instrumento e, com o cuidado daqueles que, no braço da viola, já perceberam a aproximação do “Tinhoso”, ele nos conduz à reflexão de nossas crenças, e à apreciação da “estética da roça”. Entre pactos e desafios ele nos mostra um pouco do caminho daqueles que fazem da viola o ofício da vida.

GV – Nos últimos anos percebemos um avanço técnico muito grande no estudo e execução da viola. Você acha que em termos estéticos a viola também está evoluindo, sem perda de suas características originais?

PF – Sim, existe uma clara evolução na música de viola. Porém, acredito que ela só existe quando a pessoa vai se tornando “violeiro”, ou seja, assuma a estética da roça, da prosa embaixo da mangueira, do assuntar o riozinho passando. Isso tudo evidentemente respeitando a linguagem do instrumento, com suas afinações e ritmos, além da técnica especial em suas diferentes afinações.

GV – O que você acha da divulgação e massificação, através da mídia, do universo do violeiro? Você acha que a mística que envolve a viola e violeiros “matutos” resistirá à exploração dos meios de comunicação?

PF – Essa tal “mística” resiste a tudo. Se quiserem transformar a viola em um modismo, que atenda às necessidades da indústria, isso não será problema. Como qualquer modismo, vai passar, e só vai restar o que tiver realmente importância e substância. O rio vai continuar correndo, Tonico e Tinoco tocando, Alvarenga e Ranchinho nos alegrando, além dessa nova leva de violeiros que seguirá nos surpreendendo a cada dia.

GV – O que você acha da experiência, em termos musicais, de violonistas e até mesmo violeiros, que desafiaram a viola em temas eruditos? Como você vê a “emancipação” e inclusão da viola nas salas de concerto e universidades?

PF – Todo desafio que a viola enfrentar será de muita importância. Mas, insisto, a viola tem que ser tocada como viola. Ou seja, depois que tiver a botina bem suja de barro, depois de passar as noites sem dormir de uma Folia de Reis, que perceber a aproximação do tinhoso, que atentar na sabedoria dos mestres, pois bem, acredito que apenas com esta bagagem o músico terá cacife para se tornar um violeiro. E pode encarar qualquer desafio. Daí pra frente, nossa violinha vai ter muito a aprender e ensinar, seja em relação a uma orquestra, universidade, os estrangeiros, qualquer coisa.

GV – Afinal, o autêntico violeiro do sertão, acredita mesmo no pacto para se tocar bem? De acordo com sua experiência de campo, para eles, o que é “tocar bem”?

PF – Sim, o pacto existe, e qualquer violeiro do sertão vai ter uma história para contar. Diz que só não podemos falar das próprias experiências, entonce, fico bem quietinho. Mas que tem, isso tenho certeza! Tocar bem para eles é o mesmo que para nós. A importância de cada nota e o silêncio que as embala. A busca da beleza. A arte e o encantamento.

GV – Como é sua rotina de estudos?

PF – Atualmente venho preparando um novo CD, só de composições próprias. Quando deparo com alguma dificuldade, faço algum exercício que dê jeito nela. Repito, repito e repito. Toco a mesma música várias vezes, mudo as digitações, simplifico as complicações, tento aprender com elas. Quando era mais moço fui bem disciplinado, tive ótimos professores, agradeço muito a eles.
Bom, em relação à rotina, na verdade não tem muito não. Estudo em casa, hotel, ônibus, casa dos outros, estúdio, aonde dá.

GV – Quais são suas “referências” na arte, pessoas que em algum momento fizeram você refletir e optar por determinado caminho?

PF – Já que falei em meus mestres, gostaria de citá-los aqui, de forma cronológica: Luiz Chaves, do Zimbo Trio, me apresentou a música brasileira e o mundo do violão popular; Cláudio Celso, grande guitarrista, me ensinou a procurar a liberdade na música, mas com o alicerce da casa bem firme; Manoel de Oliveira, meu mestre de viola, do sertão do Urucuia, me trouxe o universo da viola; Henrique Pinto, mestre de tantos violonistas, me fez cuidar do apuro e de aumentar as possibilidades musicais ao buscar contato com outras formas de arte; Betho Davezac, mestre uruguaio, radicado em Paris, continuou o serviço do Henrique e mostrou que meu verdadeiro caminho é a viola.

GV – Você poderia citar quatro obras gravadas (com respectivos autores), que considera fundamentais para aqueles que pretendem engendrar no mundo da música e estudo da viola?

PF – Em vez disso, recomendo que procurem o encontro com o violeiro e seu mundo – a roça, a Folia e as brincadeiras. Busquem o mestre para vê-lo tocar, bem de perto, em seu ambiente. Convivam com ele. Ponham o pé no riacho e não tenham vergonha de ficar à toa. É como diz aquela moda “Quem me vê aqui cantando/vai dizer que eu não trabalho/trago os dedos calejados/da viola e do baralho”.

Para maiores informações, acesse paulofreirevioleiro.com.br