Conhecido como um grande instrumentista e compositor, o violonista Marco Pereira se destaca ainda como um incentivador do violão autenticamente brasileiro, por meio de suas gravações e publicações. Com propriedade, ele nos fala das duas escolas do violão, a erudita e a “popular”, trilhadas por ele ao longo de sua carreira. Com objetividade ele aborda temas complexos como a Música Popular nas Universidades, a improvisação musical e expõe sua visão sobre o futuro do violão e da música instrumental no Brasil.

GV – Ao lançar, na década de oitenta, o LP “Violão popular brasileiro contemporâneo” você conquistou um séquito de admiradores que viram naquele trabalho possibilidades de uma nova proposta de linguagem e sonoridade para o violão brasileiro. Após tantos anos, como você vê isso hoje?

MP – Fico satisfeito em saber que você considera “Violão Popular Brasileiro Contemporâneo” uma boa referência, um disco que trouxe uma nova proposta com relação à linguagem e à sonoridade do violão brasileiro. Na época, a intenção talvez tenha sido essa, ou seja, resumir de maneira eficaz toda a bagagem que eu já havia adquirido com a tradição musical brasileira somada à excelência do violão clássico e ao fraseado jazzístico.

GV – Durante muitos anos o chamado “músico popular” foi acusado de criar uma “caricatura” ao interpretar a música erudita. O que você acha da abordagem, muito em moda na atualidade, do violonista de formação acadêmica acerca da interpretação da música popular?

MP – O domínio dos estilos e o conhecimento estético dos diferentes períodos da História da Música deve ser o principal parâmetro para o músico intérprete, que deve buscar, incansavelmente, a autenticidade em suas interpretações. O ensino acadêmico, especialmente dentro das Universidades, está muito bem estruturado com relação à tradição musical europeia, mas se equivoca quando insere em seus currículos o ensino de “música popular”. O que nos falta, dentro da academia, não são os cursos de “violão popular”, “piano popular”, etc., e sim uma estruturação convincente da linguagem jazzística, que é por onde esse tipo de expressão acontece. Por outro lado, percebo certa tendência em direção ao simples e vulgar, o que é ruim.

GV – Olhando para o passado, por meio da análise de obras do Garoto, Laurindo de Almeida e Baden Powell, entre outros, você acha que houve uma evolução na linguagem de composição do “violão brasileiro” que possa se tornar uma marca dos tempos atuais?

MP – Eu tenho certeza disso. Violonistas como Sergio Assad, Paulo Bellinati, Ulisses Rocha, Alessandro Penezzi, Rogerio Caetano, Yamandu Costa, e muitos outros, estão dando continuidade de forma brilhante a essa tradição.

GV – Percebemos uma grande propensão dos violonistas, à regravação de temas consagrados da MPB. Em que pese a “roupagem” nova dos arranjos, há poucas propostas de composição inovadoras. Existe uma crise de compositores para o instrumento, ou uma crise de violonistas para as novas propostas de composição da atualidade?

MP – Acredito que devido à explosão do mercado fonográfico, ao desenvolvimento tecnológico e à chegada da Internet, o acesso à informação ficou incrivelmente amplo e rápido. Com a profusão de novos trabalhos, me parece que surgiu também a necessidade do apego a manifestações já consagradas, pois sendo tudo rápido e fugaz, deixou de existir aquele “tempo” necessário para a assimilação de novidades. É mais fácil e direto, assinar sobre temas já consagrados.

GV – No início da década de 80, em entrevista a um importante jornal de Minas Gerais, Baden Powell afirmou que sabia de uma grande quantidade de ritmos brasileiros, praticados em suas regiões de origem que, caso fossem catalogados, chegariam a uma infinidade, considerando suas variações. Você fez um trabalho magnífico de pesquisa e publicação de ritmos brasileiros. O que o levou a essa iniciativa e de que forma você vê a preservação e divulgação dessas tendências tão peculiares ao Brasil, frente à massificação excessiva de elementos falseados e empacotados como cultura nacional?

MP – Eu comecei a tocar violão “de ouvido”, como grande parte dos violonistas brasileiros. Nesse início só praticava o violão de acompanhamento e desde sempre estive muito conectado com o aspecto rítmico da música brasileira. Sem nenhuma consciência ou pretensão, fui colecionando uma série de “levadas” ao longo da minha vida musical. Por outro lado, percebia que os violonistas “solistas” eram muito ruins quando se tratava de acompanhar ou fazer alguma condução rítmica. Não sei bem em que momento juntei uma coisa com a outra e achei que seria pertinente desenvolver um trabalho como “Ritmos Brasileiros”. A partir daí comecei a organizar o livro e o CD de exemplos.

GV – O que você considera essencial para se improvisar bem?

MP – Acho que existe um certo mito com relação a esse assunto. Muita gente ainda acredita que a improvisação é algo que se “faz na hora”’, por inspiração divina… Não é bem assim. O resultado satisfatório numa prática improvisada depende diretamente de três aspectos: conhecimento teórico aprofundado, habilidade rítmica muito bem desenvolvida e memória mecânica privilegiada. Esse cabedal de conhecimentos e habilidades irá formar um sólido repertório de acordes, frases melódicas e articulações rítmicas que serão combinadas e aplicadas no momento necessário. A atividade musical improvisada está muito próxima da comunicação verbal. Nesta, aprendemos primeiramente o idioma através de seu alfabeto e seus vocábulos. Em seguida, aprendemos a expressar idéias por meio de frases. Quando aprofundamos nossos conhecimentos sobre os diferentes assuntos que queremos abordar, estaremos aptos a falar livremente, de maneira “improvisada”. Tanto melhor será o discurso quanto maior for o conhecimento e a capacidade de ser direto e preciso.

GV – Quais são suas perspectivas para a música instrumental no Brasil? Com a evolução rápida e efemeridade de tudo, você acha que ainda viveremos tempos férteis e gratificantes na música instrumental brasileira?

MP – As novas gerações de músicos brasileiros são a prova de que nossa música continua com excelente qualidade. Os meios de comunicação fizeram a opção pela vulgaridade e pelo produto de péssima qualidade, mas isso não quer dizer que tudo tem de ser assim. O caldeirão da nossa “boa música” continua fervendo!