Com grande conhecimento e riqueza de detalhes, Luiz Otávio Savassi Rocha, o Dr. Savassi, nos conduz a um mundo de paixão onde imperam a música e a literatura em convivência harmoniosa com a medicina. Com a obstinação e o entusiasmo daqueles que fazem do cotidiano um exercício de dedicação e entrega a todas as manifestações de sensibilidade e de vida, ele nos leva à reflexão sobre a necessidade de valorizarmos nossas raízes, nossa arte e nosso povo. Assim, entre uma resposta e outra, somos levados à essência de seu pensamento, onde personagens reais e imaginários povoam e direcionam sua integridade e sacerdócio de médico e artista; de homem de várias facetas. Nesses desdobramentos surge um homem voltado para os principais valores que dão sentido à nossa vida e descortina-se diante de nós a possibilidade de sermos “Um em diversos” – Universo.

GV – Como surgiu o choro (gênero musical) e a literatura em sua vida? E como foi o processo de evolução dessas duas artes e a conciliação com a medicina, que o senhor exerce como um sacerdócio?

LOSR – Minha infância transcorreu impregnada de música. Nasci na região central de Belo Horizonte, numa casa com varanda e quintal, com a fachada revestida de “pó-de-pedra”, na Rua Guajajaras, 27. Morei ali durante oito anos, ouvindo os sinos da Igreja da Boa Viagem, os acordes das bandas de música e os grandes tenores italianos, em discos de vinil, de 78 rotações (com destaque para Beniamino Gigli, com sua voz aveludada), além, evidentemente, do canto dos pássaros que, de acordo com o musicista e ornitólogo Olivier Messiaen, considerado o mais original compositor francês do século XX, “inventaram as escalas cromática e diatônica, os quartos e sextos de tom e até a improvisação coletiva”. Em 1954, já morávamos no Bairro Floresta (Rua Itajubá, 834) e, quase em frente à nossa casa, vivia uma família (Nasztaszity), penso que de origem húngara, que respirava música: para meu deleite, mãe e filhas passavam horas cantando e executando vários instrumentos (piano, violino, acordeom). No novo endereço, meu pai houve por bem adquirir uma cítara, instrumento de cordas, tocado com palheta, que, como fiquei sabendo recentemente, era utilizado na educação musical dos jovens na Grécia antiga. Impressas numa folha de papel — que funcionava como “partitura” e interpunha-se entre o corpo do instrumento e as cordas —, as notas musicais eram representadas por pontos pretos: quando interligadas por traços, deveriam ser tocadas sem interrupção; caso contrário, impunha-se pequena pausa. Destarte, interpretávamos, eu e meus irmãos, sem grande esforço, uma série de melodias, como se instrumentistas fôssemos… Data dessa época meu primeiro contato, ao vivo, com um autêntico “conjunto regional”, em festa de aniversário na casa de meu primo Walter Savassi (Rua Araripe, 436). Foi uma experiência extremamente prazerosa, despertando em mim o fascínio pelo choro — a “essência musical da alma brasileira”, no dizer de Villa-Lobos. No final dos anos 80, aprendi, sozinho, a tocar pandeiro (ou melhor, continuo aprendendo até hoje) e recebi informações sobre o cavaquinho, fruto de minha convivência com o talentoso violonista autodidata José Nunes de Oliveira (Prof. Patesco), professor de meus filhos e do próprio Waldir Silva, quando, ainda rapazinho, proveniente de Bom Despacho, aportou em Pitangui. Sob a orientação do Prof. Patesco, eu e meus filhos criamos um conjunto regional (eu, no pandeiro; Alexandre, no violão de 6 cordas; Guilherme, no cavaquinho; Renato, que, anos depois, seria o líder da banda Cálix, na flauta). Depois de adquirir alguma intimidade com o cavaquinho, ousei compor despretensiosa valsinha (Rua Tuiuti), dedicada à minha esposa Ana Maria. Em 1997, nossa família foi homenageada com um lindo choro (Escala real), composto por meu grande amigo Angelo Zaniol, o maior chorão da Itália que, recentemente, inaugurou notável website dedicado a João Pernambuco www.joaopernambuco.com. Finalmente, em 2006, filiei-me ao recém-criado Clube do Choro de Belo Horizonte, que proporciona fraternal congraçamento entre músicos profissionais e simples diletantes como eu. Quanto à literatura, sempre fui ávido leitor, encantado com a origem e o significado das palavras, a exemplo de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, para quem “Definir uma palavra é capturar uma borboleta no ar”. A propósito, quando eu estudava no inesquecível Colégio Estadual de Minas Gerais — incluído, na época, entre os três ou quatro melhores educandários do Brasil —, um colega de turma muito espirituoso, que andava com um violão debaixo do braço, chegou a compor uma modinha insinuando que eu me apaixonara pelo dicionário… Para não me alongar mais, eu diria que as artes em geral têm tudo a ver com a Medicina, na medida em que ajudam a refinar o espírito e apurar a sensibilidade, atributos indispensáveis à prática da profissão.

GV – O senhor é considerado um grande conhecedor da obra de João Guimarães Rosa. Como se deu esse envolvimento e a partir de quando surgiu o seu interesse em aprofundar seus conhecimentos nos escritos desse autor?

LOSR – Acredito que, pelo menos em parte, tenha sido um processo natural. Meu saudoso pai, Cristóvão Rocha, nasceu em Cordisburgo, em 1917, na mesma rua onde nascera, em 1908, João Guimarães Rosa. Meu avô, Geraldino Rocha, era proprietário de uma venda — dessas do interior, que tinham de tudo um pouco — com as mesmas características da venda do Florduardo, pai do futuro escritor. Geraldino e Florduardo eram, pois, “amigáveis concorrentes”. Ademais, minha tia Maria de Lourdes, dois anos mais velha que o “Joãozito” (alcunha familiar de João Guimarães Rosa), ensinou-o a jogar xadrez nas férias de 1919-1920. O personagem Major Saulo, do conto O burrinho pedrês, de Sagarana, foi inspirado na figura do pecuarista Sérgio Correa, sogro de Maria de Lourdes. A propósito de Sagarana, meu pai possuía um exemplar (3ª edição, revista), que hoje se encontra em meu poder, com dedicatória do autor. Mas o que me levou mesmo, há mais de 30 anos, a me aprofundar no estudo da obra rosiana, foi o retorno proporcionado por essa mesma obra, pura poesia em prosa (ou prosoema, como definiu Oswaldino Marques), na medida em que, entre outros atributos, vale mais pelo modo de dizer do que propriamente pelo que diz…

GV – Existe na obra de Guimarães Rosa uma riqueza muito grande de imagens que estimulam e induzem roteiristas e diretores à criação cinematográfica, teatral, entre outras. Há também um forte apelo na linguagem utilizada, que leva artistas e alguns estudiosos a uma interpretação, às vezes, errônea e caricatural, beirando o burlesco. Como o senhor vê esses aspectos e até que ponto isso pode camuflar, por sua força de expressão, a essência e qualidades intrínsecas inerentes a um plano superior da obra de João Guimarães Rosa?

LOSR – Respondo a essa pergunta referindo-me ao seriado baseado em Grande Sertão:Veredas, levado ao ar pela Rede Globo de Televisão entre 18 de novembro e 20 de dezembro de 1985, num total de 25 capítulos, com direção de Walter Avancini. Apesar de reconhecer pontos positivos no seriado, faço-lhe sérias restrições, como restrições faço a várias das transposições da obra rosiana para o teatro e o cinema, pelas razões que você apontou. Curiosamente, no caso do seriado da Rede Globo, alguns dos melhores momentos correram por conta dos coadjuvantes, representados por gente da terra, o que levou o diretor de teatro Amir Haddad a afirmar: “Então fico com o Pasolini, que preferia os não-atores…”. Uma cena que, particularmente, me comoveu, foi, no capítulo 17, a travessia do arraial do Sucruiú, dizimado pela bexiga-preta (forma grave de varíola) — uma travessia que, nas palavras de Riobaldo, “durou só um instantezinho enorme” —, vendo-se as fogueiras ardendo em frente às casas, os doentes desfigurados, os ratos, os jagunços perfilados a recitar o Pai-nosso para exorcizar o mal e, sobretudo, uma mulher ensandecida que, sem que se esperasse, surgiu intempestivamente no momento da filmagem, entoando rezas no meio da rua… Essa, sim, foi uma cena digna da literatura rosiana!

GV – Sobre a questão do neologismo na obra de Guimarães Rosa, o senhor acha que houve uma criação autoral que serviu ao desenvolvimento literário do escritor, ou uma constatação e registro de uma linguagem corriqueira, atribuída ao homem do sertão e abordada com técnicas de literatura, utilizada em seus escritos?

LOSR – Trata-se de pergunta complexa, que exigiria um longo comentário. Para simplificar a resposta, direi apenas que muitos dos supostos neologismos da obra rosiana não passam de antigas expressões de uso corriqueiro sertão afora. Assim, por exemplo, a expressão “roscofe” era ouvida, há muitos decênios, por minha sogra, hoje com 95 anos, na região de Conceição do Mato Dentro, com o significado de “da pior qualidade”. A expressão provém de uma marca de relógios suíços (Roscoff), antigamente muito difundidos no interior do país, que se tornaram famosos por serem os mais baratos e por sua qualidade inferior, fazendo com que o nome próprio, com o tempo, se transformasse em adjetivo. Segundo afirmou o próprio Guimarães Rosa, em carta ao tradutor italiano Edoardo Bizzarri, esses relógios penetraram na Rússia e, por incrível que pareça, por lá deixaram também, com o mesmo significado de “coisa que não presta”, o adjetivo “roscoff”. Na obra rosiana, a expressão aparece na novela Uma estória de amor, incluída no livro Manuelzão e Miguilim: “ — ‘Manuelzão, sua festa está supimpa! Está de encher os meios…’ — Qual, seo Filipinho d’Anta… Roscofe…Mas folgo que o senhor me declare…”.

GV – Fala-se muito sobre a musicalidade na obra de Guimarães Rosa. Na música, muito se tentou criar, a partir dessa premissa. Existe algo, realmente significativo em nosso cancioneiro, que tenha uma ligação direta com a obra desse autor?

LOSR – Sim. À guisa de exemplo eu citaria a cantata cênica Sertão Sertões e a ópera contemporânea (em três atos) Balada para Matraga, de autoria do maestro argentino Rufo Herrera, radicado em Belo Horizonte. Citaria, também, a composição Manoelzim da crôa, de Tavinho Moura (Caboclo d’água – Instrumental de viola, Velas, 1992), inspirada na graciosa ave homônima — que é quase um personagem em Grande Sertão:Veredas —, a respeito da qual escrevi um ensaio, encomendado pelo Prof. Haroldo de Almeida Marques, da PUC Minas. Aliás, a leitura da obra de Guimarães Rosa teve o condão de transformar-me em observador de pássaros. Cheguei, até mesmo, a compor uma toada (letra e música), baseada no urutau ou mãe-da-lua, ave de hábitos noturnos que, ora com uma denominação, ora com a outra, aparece de forma iterativa na obra rosiana. De vôo silencioso como o das corujas, o urutau (do tupi uirá-tau-í, ave-fantasma) é dotado de um “olho mágico” (através das fendas nas pálpebras superiores consegue observar tudo ao redor, mesmo com os olhos, grandes e salientes, totalmente fechados) e de surpreendente capacidade de camuflagem (“mimetismo de galho”); seu canto, ouvido nas noites enluaradas a partir dos meses de setembro/outubro (daí a denominação mãe-da-lua), adquire entonações macabras, como se fosse um lamento humano (cinco a sete gritos consecutivos, de início roucos, numa seqüência descendente, amortecendo terminalmente). Na novela Buriti,incluída no livro Noites do Sertão, assim se expressa Guimarães Rosa: ”O urutau, que o canto dele encantado de gente, copiando: é um homem ou mulher, que estão sendo matados, queixas extremas”./”Mas a mãe-da-lua, se vê mesmo uma estrela caindo com fogo rastro, ela esgrita:…Foi, foi, foi, foi!…”/”O urutau, em veludo. Í-éé…Í-ée…Ieu…”. Em Grande Sertão:Veredas, há, pelo menos, cinco referências à ave, como a que se segue: “Era da borda-do-campo que a mãe-da-lua sofria seu cujo de canto, do vulto de árvores da mata cercã”.

GV – A figura do violeiro está, para muitos, relacionada ao “Grande sertão – veredas”, principalmente pela forte alusão ao pacto com o demônio, difundido como algo presente na vida daqueles que desejam tocar bem o instrumento. Sabemos que embora este livro sirva como um sustentáculo para o posicionamento dos violeiros, na maioria das vezes, o que ouvimos dos profissionais não passa de uma alegoria e argumentação pitoresca que explora o aspecto curioso e “engraçado” do tema. O senhor conhece o universo e estórias dos violeiros e as identifica nessa obra? Como homem ligado à ciência, como o senhor vê a questão do “Pacto com o demônio”?

LOSR – É inquestionável que a cultura da viola – instrumento popular por excelência, trazido pelos portugueses nos primórdios da colonização – tem tudo a ver com a obra rosiana, fato explorado pelos violeiros, com maior ou menor sensibilidade. Os estudiosos do folclore brasileiro mencionam, de forma iterativa, a crença de que o demônio dispõe-se a transmitir seu suposto virtuosismo na execução do instrumento, desde que o interessado esteja disposto a seguir curioso ritual: a viola deve ser nova, o dia tem que ser sexta-feira (de preferência sexta-feira da paixão) e o local uma encruzilhada, à meia-noite. No conto Sarapalha, de Sagarana, no diálogo entre primo Argemiro e primo Ribeiro, acometidos pela malária, há menção ao demônio, personificado pelo “moço-bonito que apareceu, vestido com roupa de dia-de-domingo e com a viola enfeitada de fitas”. Por outro lado, em Grande Sertão: Veredas, a viola é o único instrumento musical a figurar repetidas vezes na narrativa: “Só um bom tocado de viola é que podia remir a vivez de tudo aquilo.” “Aquilo aborrecia. Eu queria é estar-estâncias: dos violeiros, que tocavam sentimento geral.” “Otacília sendo forte como a paz, feito aqueles largos remansos do Urucuia, mas que é rio de braveza. Ele está sempre longe. Sozinho. Ouvindo uma violinha tocar, o senhor se lembra dele.” “Sossego traz desejos. Eu não lerdeava; mas queria festa simples, achar um arraial bom, em feira-de-gado. Queria ouvir uma bela viola de Queluz, e o sapateado dos pés dansando.” Uma das marcas registradas de Grande Sertão: Veredas é o fato de Riobaldo privilegiar o jogo dialético (“tudo é e não é…”) e cultivar a dúvida sistemática, particularmente em relação ao demônio, cuja existência ora é afirmada, ora negada — a ponto, no último caso, de o demônio ser identificado com o “homem arruinado” ou o “homem dos avessos”. Para aumentar sua perplexidade, ao propor o pacto, nas Veredas-Mortas, Riobaldo recebeu de volta tão-somente uma espécie de aviso sutil — “um adejo, um gozo de agarro” —, que, não obstante, lhe trouxe “umas tranqüilidades — de pancada”. Tanto assim que, a partir de então, na condição de homem renovado, readquiriu a confiança em si mesmo e passou a se afirmar no bando dos jagunços, a ponto de ser aclamado chefe — o “Urutú-Branco”. O fato é que, sem conseguir captar o exato significado de sua experiência, Riobaldo adota a suspensão do julgamento: “As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!”. A propósito do peso de entidades como o demônio, vale lembrar, por seu poder de síntese, o verso memorável de Fernando Pessoa, extraído do poema Ulisses: “O mito é o nada que é tudo”. Afinal, como bem observou Ezra Pound, os artistas são as “antenas da raça” — expressão que, evidentemente, se aplica ao poeta português.

GV – Como membro do Clube do Choro de Belo Horizonte, como o senhor vê esse grande “agito” em torno desse gênero que muitos já diziam ter “morrido”? Em termos de composição, existe alguma vertente na atualidade que proponha uma linguagem que dê seqüência à que os grandes mestres do choro iniciaram?

LOSR – O “agito” é relativo. Tanto assim que em 26/8/2007, um domingo, eu e minha esposa fomos assistir ao documentário Brasileirinho, dirigido pelo cineasta finlandês Mika Kaurismäki, e não havia mais ninguém na platéia. Ademais, o Clube do Choro de Belo Horizonte, fundado em 31/5/2006, tinha, em dezembro de 2007, apenas 58 associados, incluídos os 21 sócios fundadores. Quanto à busca de uma “nova linguagem” em termos de composição e/ou interpretação, avulta, em primeiro plano, a figura emblemática do maestro Radamés Gnattali, cognominado o “eterno experimentador”, que influenciou toda uma geração de talentosos chorões, a partir do começo dos anos 70. Mais recentemente, criou-se a expressão “neochoro” para se referir a uma proposta sonora em que o choro tradicional recebe a influência da música erudita, dos acordes dissonantes da bossa-nova e dos improvisos do jazz. Penso que tais inovações são saudáveis, desde que não percam de vista as raízes, para não descaracterizar um gênero musical (e maneira de tocar) que completa, em 2008, 137 anos, se se considera como marco zero a composição Olhos matadores, do maestro Henrique Alves de Mesquita, datada de 1871. A propósito, vale relembrar aqui a “metáfora do estilingue”, utilizada pelo designer Aloísio Magalhães (1927-1982), segundo a qual “quanto mais atrás se puxam as tiras de borracha”, ou seja, quanto mais longe se vai em busca das raízes, “mais longe a pedra alcança”, ou seja, mais consistente e durável será qualquer proposta futura.

GV – Música versus literatura. O que o toca mais?

LOSR – Não há como comparar, mesmo porque, como bem diz Guimarães Rosa no conto São Marcos, de Sagarana, “as palavras têm canto e plumagem”. Ademais, penso que toda criação artística requintada, independentemente da linguagem utilizada (musical ou literária), aspira a um mesmo fim, ou seja, exprimir estados anímicos que, no fundo, são inexprimíveis. Vale lembrar, a propósito, os versos antológicos de Ferreira Gullar: “Uma parte de mim é só vertigem: outra parte linguagem. Traduzir uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte?”.

GV – Como médico de grande categoria, o senhor acha que há uma receita que possa nos curar desse mal que assola nossos ouvidos e invade nossas vidas, chamado de “Música de entretenimento”? Imposto pela grande mídia, ele abastece os cofres de grandes multinacionais e alguns artistas e nos conduzem a uma preguiça mental e entorpecimento de nossa percepção. O que fazer?

LOSR – Para ilustrar o que você quis dizer, reproduzo pequeno fragmento de um artigo assinado pelo jornalista e crítico musical Ilmar Carvalho, publicado na revista Roda de choro (jan/fev 1996): “O mercado carioca, bastante restrito para um gênero musical tão requintado como o choro, esbarra, de um lado, no fato de mais de l milhão e 500 mil jovens cariocas dos subúrbios (e agora até da Zona Sul) aderirem ao funk e ao rap em mais de 400 bailes semanais. Esses bailes são realizados por 100 equipes de som onde atuam 750 Djs. De outro lado, praticamente toda a mídia — televisão, rádios, CDs, fitas, clipes, vídeos — se ocupa virtualmente com o pop e seus sucedâneos”. A meu ver, a única saída para melhorar um pouco o nível consiste em expor, o mais cedo possível, crianças e jovens à música de qualidade, a exemplo do que tem sido feito em Brasília, a partir da criação, em 1998, da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, inteiramente gratuita e aberta a pessoas das mais diferentes idades, com 300 alunos matriculados em 2007.

GV – Cite quatro músicas e quatro livros que o senhor considera imprescindíveis para aqueles que buscam o conhecimento de nossa arte brasileira…

LOSR – É extremamente difícil escolher quatro músicas e quatro livros em meio a tantas opções que se equivalem em termos de mérito artístico. Não obstante, aceito o desafio, lembrando que, fosse outro o momento, a resposta poderia ser diferente. Músicas Confidências – valsa de Ernesto Nazareth; Estou voltando – choro de quatro partes, de autoria de Pixinguinha, Donga e João Pernambuco; Chovendo na roseira – de Tom Jobim, com os versos antológicos: “Olha, um tico-tico mora ao lado, e passeando no molhado, adivinhou a primavera”; Diamantina em serenata – melodia da pianista Lícia de Pádua Coelho, letra do Monsenhor Celso de Carvalho, com os versos antológicos: “Estas ruas serpeantes, é tão fácil entendê-las: descem doidas por diamantes, sobem ávidas de estrelas” — versos esses que incluí no prefácio do livro Ensaios médico-educativos e sociais, de autoria do diamantinense Jayme Neves, professor emérito da Faculdade de Medicina da UFMG. Livros De Machado de Assis: Dom Casmurro; De João Guimarães Rosa: Grande Sertão:Veredas; Primeiras estórias e No Urubùquaquá, no Pinhém. Este último, fruto do desdobramento de Corpo de baile, inclui a novela O recado do morro, cuja trama se desenvolve, toda ela, em Cordisburgo e arredores. Em O recado do morro, uma mensagem, ouvida durante uma expedição por um velho eremita, passa de boca em boca por uma série de personagens marginais — seres primitivos de senso embotado, mas de sentidos apurados — até chegar a um bardo popular que, não só capta a mensagem — um recado infralógico emanado do Morro da Garça —, como também lhe dá forma e sentido, convertendo-a numa obra de arte (“uma dessas cantigas migradoras, que pousam no coração do povo: que as violas semeiam e os cegos vendem pelas estradas”) e permitindo a decifração, por parte do protagonista (Pedro Orósio), do código nela contido. Por sua beleza, faço questão de reproduzir aqui, na íntegra, a reação do naturalista europeu “senhor Alquist”, curioso personagem da novela, ao tomar conhecimento da peça musical que acabara de ser concebida: “ ‘Importante…Importante…’ — afirmava o senhor Alquist, sisudo subitamente, desejando que lhe traduzissem o texto, digestim ac districtim, para o anotar. Sem apreender embora o inteiro sentido, de fora aquele pudera perceber o profundo do bafo, da força melodiã e do sobressalto que o verso transmuz da pedra das palavras”. Merece registro o fato de 2008 coincidir com o centenário da morte de Machado de Assis e do nascimento de João Guimarães Rosa, como se um fizesse questão de “passar o bastão” para o outro…