Profundo conhecedor da linguagem cinematográfica, o Professor José Tavares de Barros fala com sensibilidade, de forma espontânea, de sua visão sobre o cinema atual. Com sabedoria ele nos conduz à compreensão da importância da emoção e abordagem do mistério da vida e espiritualidade no cinema, para a realização de um bom filme.

GV – Com características próprias de estilo e circunstâncias de época, marcaram a história do cinema, movimentos como a Nouvelle Vague, o Neo-realismo italiano, o Cinema Novo… Existe, no cinema brasileiro atual, alguma característica particular, que vá marcar esta época?

JTB – Não entendo que existam atualmente tendências específicas no cinema brasileiro, como ocorreu com a Nouvelle Vague e com o próprio Cinema Novo. Desde a retomada, em 1990, há uma diversidade heterogênea de temáticas, enfoques e estilos, além de reincidente relação ambígua com o público. Há categorias evidentes, como a do cinema comercial – nem sempre com êxito – e um cinema independente com temáticas importantes e experimentação de linguagem, como os recentes “Céu de Suely” e “Cinema, aspirina e urubus”. Não percebo, na conjuntura atual, um modo brasileiro do fazer cinematográfico, como ocorre com os cinemas americano e francês.

GV – Como o senhor vê os filmes lançados nos últimos anos, do ponto de vista de roteiro?

JTB – Tenho tido oportunidade, nos últimos anos, de participar de comissões para outorga de fundos de produção, com base em roteiros. Do ponto de vista técnico, considero excelente o nível alcançado por algumas dessas propostas, como ocorreu no último concurso da Petrobrás, do qual participei. Claro que, no fim das contas, um bom roteiro depende também de uma boa idéia e de um argumento desenvolvido com criatividade.

GV – Vários filmes chegam até nós tão bem “embalados” e bem acabados tecnicamente, que dificultam uma apreciação embasada somente em conceitos artísticos, tamanho o condicionamento através da mídia, que os precedem. Assistindo a um filme, o que o leva a concluir ser ele de boa qualidade, em todos os aspectos?

JTB – A embalagem, realmente, é um setor amplificado por certos produtores capitalizados, com inegável influência sobre a receptividade do público. É o caso da filmagem de sucessos literários e mesmo da televisão (“A Grande Família”, p. ex.), com os chamados atores globais (“Se eu fosse você”). No meu entender, supostas as condições técnicas mínimas de imagem e som, caracterizam um bom filme uma superposição de fatores: história engajada do ponto de vista psicológico e social, desenvolvimento criativo da narrativa, personagens densos e coerentes, elaboração de metáforas, elipses e outras figuras de estilo. Numa palavra, identificação orgânica do cineasta-autor com seu relato cinematográfico.

GV – Como o senhor vê a questão Qualidade/Orçamento na produção cinematográfica brasileira atual?

JTB – O cinema brasileiro é quase totalmente subsidiado por órgãos governamentais, como sabemos. Nos cerca de 300 projetos que examinei recentemente, encontrei muitas distorções entre o orçamento proposto e as características de produção deste ou daquele filme. Há uma tendência dos produtores a supervalorizarem os orçamentos, considerando as dificuldades de captação dos recursos. Nesses casos, há enorme diversidade de critérios para determinação de valores para mão de obra, equipamentos, locações, etc.

GV – O cinema mineiro, que teve fortes representantes em seus primórdios, continua tendo estilo próprio e propostas arrojadas que o diferenciam do cinema nacional?

JTB – O cinema mineiro nunca conseguiu impor-se nacionalmente como centro de produção. Nunca chegou a fazer escola ou marcar tendências, como a chanchada carioca, o ciclo da Vera Cruz e, muito mais importantes, o Cinema Novo e o Cinema Marginal. Ocorreram em Minas ciclos de importância cultural, mas de mínima repercussão comercial, como a fase de Humberto Mauro e o núcleo de produção com recursos da Embrafilme, nos anos 1980. Com a tecnologia digital, está ocorrendo uma renovação importante da produção mineira, com destaque para o cinema experimental e de animação. Mas, como acontece em todo o Brasil, o acesso do público constitui ainda um problema sem solução aparente.

GV – Emoção versus Técnica – O que o impressiona mais em um filme?

JTB – No meu ponto de vista, antes de tudo, cinema é emoção. Emoção tem a ver com inspiração, criatividade, amor pelo cinema, identificação do espectador com o cineasta, abordagem do mistério da vida e da espiritualidade. Ingmar Bergman, com seus memoráveis primeiros planos, contribuiu para aprofundar o conhecimento do ser humano. Nesse sentido, um bom filme pode ser feito com mínimos recursos técnicos, como em certos filmes iranianos da atualidade. Na minha formação, o Neo-realismo italiano foi a escola que me ensinou a ver a realidade de outro modo, filtrada pelas imagens e pela montagem cinematográficas.

GV – Cite quatro filmes que considera fundamentais na formação daqueles que desejam se engendrar no estudo do cinema.

JTB – Difícil resumir mais de 100 anos em apenas 4 indicações. Indico os que mais me marcaram como espectador, talvez por motivos bem diferentes: NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (Stagecoach), de John Ford. LADRÕES DE BICICLETA (Ladri di biciclette), de Vittorio De Sica. OTTO E MEZZO, de Federico Fellini. VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos. Quatro filme em P/B, as cores ficam por conta da nossa imaginação.