José Lucena figura hoje, entre os mais importantes professores de violão erudito no Brasil. Responsável pela formação de vários violonistas de projeção nacional e internacional, ele tornou-se, ao longo dos anos, referência para os amantes deste instrumento. Aqui, ele expõe suas impressões sobre a música de um modo geral e, com seu jeito tranqüilo, conta suas experiências imprimindo, em seus comentários, a sabedoria acumulada ao longo de anos de dedicação exclusiva ao violão. Para ele, a atenção à natureza e a tudo que nos rodeia se transforma em uma lição, nos abrindo novas perspectivas e provocando vislumbres de um universo experimentado apenas por aqueles que dirigem seu foco para as coisas interiores. Observando seus argumentos sobre a música, aprendemos uma nova forma de “enxergar” o mundo. Através dele a visão do cotidiano torna-se algo para ser experimentado, degustado por todos os sentidos. Aproveite!

GV – Você é o responsável pela primeira cadeira de violão numa universidade brasileira. Quando foi criado o primeiro curso, o que o levou a esta iniciativa e quem foi o primeiro bacharel em violão formado por você?

JL – Até onde sei, o nosso curso de violão, é o primeiro do Brasil, em Universidades Federais. Em 1971, quando estava procurando consolidar minha formação violonística, participei do “Seminário Internacional de Violão”, que era realizado em Porto Alegre. Nesta ocasião pude constatar que o violão no Brasil, no que diz respeito ao ensino acadêmico, estava engatinhando. Quando então, por uma questão cívica, penso, decidi, como proposta de vida, colocar o maravilhoso instrumento na Universidade. Fato este que se deu em 1976. Já em 1980, formávamos o primeiro bacharel em violão do Brasil. Trata-se de Lindolfo Antunes Bicalho, que hoje leciona em Paris.

GV – Como foi, no começo, fazer uma abordagem erudita e ensinar um instrumento que, no Brasil, já tinha as raízes plantadas na MPB?

JL – Naturalmente, que no princípio foi bastante difícil, já que tivemos que lutar contra o preconceito. É que o violão tem raízes profundas na MPB. Entretanto, penso que quando se tem um propósito bem definido, objetivo claro e verdadeiro, como era, com segurança, nosso caso, as peças se ajustam.

GV – Durante um período de nossa música, percebo que houve, por parte dos músicos eruditos, uma dificuldade de aceitação da música popular como uma arte séria, embasada por estudo e disciplina. Percebo que a abordagem destes músicos, no que diz respeito à execução pública da música popular, muitas vezes tratava-se muito mais de uma “concessão” a uma arte tida como menor e funcionava como um “recreio” em meio a programas do repertório erudito tradicional. O que você pensa a esse respeito? Como você vê a relação, erudito/popular nos dias de hoje?

JL – Durante o século passado até mais ou menos anos setenta, penso que a discriminação era recíproca. Músicos acadêmicos olhavam, não muito raro, com desprezo para os músicos populares; também estes não olhavam com bons olhos para os músicos eruditos, claro, com algumas exceções. Felizmente tudo isto acabou. O que vemos hoje é uma perfeita harmonia entre ambos, pois o que se verifica é que todos estudam e muito, diga-se de passagem. Não importa se a música é popular ou erudita; o que vale é se é ou não música boa.

GV – O que você considera uma boa música?

JL – O problema agora é saber o que é música boa. Na verdade isto não existe. Tudo é relativo. O que é música boa para uma pessoa, pode ser ruim para outra e assim sucessivamente, já que é tudo relativo. O que se tem de levar em conta então, é a estética de cada um. Quando falo de estética, me refiro ao conjunto de convicções de cada pessoa. Quais sejam: políticas, sociais, religiosas econômicas e outras. E é isto que, na minha opinião, vai contribuir para o julgamento. Penso, entretanto, que no momento em que há um equilíbrio entre o grau de redundância e informação histórica, já se pode dizer que a obra de arte é boa.

GV – Quais as características você considera importantes para que alguém seja um bom músico?

JL – Se observarmos a natureza, ela sempre tem bons exemplos para nos dar. Veja um rio, cujo destino é bem claro. Abre seu próprio caminho, vence qualquer obstáculo, perfaz todas voltas se necessário for; todavia, não perde seu objetivo e o atinge sem dúvida. Entendo, então, que para uma pessoa se transformar em um bom músico é importante não perder o foco. Traçar o objetivo; se for verdadeiro, seguramente ele será atingido. Acho que a soma de uma grande vontade com o talento, ainda que pequeno, é suficiente para se atingir um objetivo. Já dizia Beethoven e Tomas Edson: “um por cento de inspiração e noventa e nove de transpiração”.

GV – Como você vê as perspectivas de mercado para um estudante de violão e música em geral, que ingressa hoje numa universidade?

JL – O mercado de trabalho para um jovem que entra na universidade hoje, não é muito auspicioso como se desejaria. Parece-me que em todas as áreas. Portanto, a música não é uma exceção. Acredito, entretanto, que quem tem proposta clara, sabe com certeza o que quer e está de fato preparado, obviamente vai conseguir seu lugar. A esperança é necessária!

GV – Quais são suas “referências” na música, aqueles que em algum momento o fizeram refletir e optar por determinado caminho?

JL – Minha base musical se deu no Instituto São Rafael, onde o ensino de música era de primeira. Basta dizer que foi fundado em 1926 e o Conservatório de Música em 1925. E daí? É que os professores que ensinavam no Conservatório, também davam aulas no São Rafael. Então tínhamos um ensino musical de primeira mesmo, já que o Conservatório era modelo. Tive muita sorte, quando na década de cinqüenta iniciei meus estudos musicais e ainda peguei brilhantes professores de música tais como: Arnaldo Marchezotti, Joanino Araujo, Jesus Ferreira, Walter Alves e Luiza Nepomuceno. Esta, prima do grande compositor brasileiro Alberto Nepomuceno. Sou muito grato a todos eles. Me apontaram, com sabedoria, o rumo certo. Muito embora, … rumo certo? Que é isto? Fato é que sou feliz

GV – Você poderia indicar quatro obras que considera indispensáveis para quem deseja aprofundar seus conhecimentos musicais?

JL – No sentido de aprofundar o conhecimento musical, além do estudo de obras significativas, é preciso também penetrar, sem temor, em pelo menos quatro estilos diferentes. Uma boa passada em obras da Renascença, Barroco, Clássico, Moderno e outros, me parece imprescindível para uma boa formação.