O violonista Fábio Zanon é considerado um dos principais concertistas da atualidade. Com objetividade e conhecimento da realidade cultural de nosso país ele nos conduz, com suas palavras, à desmitificação de paradigmas elaborados ao longo dos anos, que permeiam o conceito do ofício de ser músico. Com habilidade e clareza em suas colocações, percebemos, pouco a pouco, um ser humano receptivo às novas ideias e vertentes. Com olhar otimista e consciência da realidade atual, ele valoriza o crescimento do ser em sua totalidade, tendo como busca constante o aprimoramento musical. Tudo embasado pelo crescimento pessoal e sensibilidade a tudo que nos rodeia. Aproveitem!

GV – Fala-se muito em crise no repertório violonístico erudito e que os programas de concerto são muito repetitivos. Você concorda com essa afirmativa? Há uma crise na composição erudita para violão?

FZ – Fala-se muito, mas eu não concordo nem um pouco. Não consigo achar que pode estar em crise o instrumento solista que mais tem música nova publicada, que mais adota música contemporânea, que é o mais inclusivo das variadas propostas estéticas, que mais investiga o repertório antigo. O que acho que existe são algumas fronteiras que ainda não foram transpostas. A gente nota, por parte dos estudantes e muitos concertistas, três ocorrências que são interligadas: a repetitividade na escolha do repertório de música antiga; o excesso de interesse por música brilhante como veículo para o violão, mas amadora no aspecto composicional; e o abuso de transcrições absurdas que só deixam uma imagem desfavorável para o violão. São três faces do mesmo problema: falta de cultura musical dos violonistas, algo que nossos programas universitários não estão fazendo muito pra corrigir. Quantos violonistas ativos – e não falo só de Brasil – conhecem de verdade, só pra ficar no mais manjado, as obras de Francesco da Milano, de Fernando Sor e de Camargo Guarnieri? Pois é, a gente precisa rever a maneira como ensina violão, porque o nosso maior patrimônio, o repertório, é mal conhecido por quem toca.

GV – Considerando o contexto sócio-cultural brasileiro, como você vê as iniciativas atuais que visam a projeção e massificação de nossa música de concerto e de nossos instrumentistas? Vivemos uma crise, também de público?

FZ – Também acho que não. O Brasil, na última década, começou a adotar o ensino de música como uma ferramenta de inclusão social. A maior parte das experiências – Projeto Guri, Neojibá, Escola Bacarelli em Heliópolis, etc. – adota o modelo venezuelano do El Sistema e se concentram em música clássica quase que exclusivamente. Algumas experiências, como a Escola Portátil no Rio de Janeiro, têm um projeto próprio e contemplam outros gêneros, como o choro. Nem todo mundo que estuda nesses projetos se tornará músico profissional, mas terá sua vida melhorada pela música. Esse será também um público potencial imenso. Isso quase que inexiste em outros países nessa escala. Eu não vejo isso como massificação, que me soa como algo feito em larga escala e empurrado “goela abaixo”. Parece mais um processo de complemento à educação. Quem for se tornar um músico profissional, não poderá contar somente com o que é ensinado nesses projetos. Terá de ir atrás de conhecimento mais sofisticado por conta própria. Ainda assim, tem muitos professores excepcionais que estão participando desses projetos por um senso de dever pessoal, e os alunos dificilmente poderiam contar com orientação melhor.

GV – Como você vê, no Brasil, a convivência da música erudita com uma música popular de grande força e projeção? Existe um público atento às propostas da vertente erudita instrumental? Como chegar até ele?

FZ – Eu acho que a convivência do gênero clássico com o popular é ótima, o que falta é reciprocidade. Acho natural, porque a música brasileira tende a afirmar sua identidade nacional rechaçando o que vem de fora, e a música clássica é, por natureza, internacionalista. Eu conheço poucos músicos clássicos que não saibam quem é Hermeto Pascoal ou Milton Nascimento, mas conheço muitos músicos do instrumental brasileiro que não sabem quem é, digamos, Schubert ou Stravinsky. Antigamente, as opiniões eram mais polarizadas. Até a época em que eu era estudante, nos anos 80, havia muita gente – músicos e público – que achava que música clássica era uma coisa superior, que não deveria se misturar e tal. Isso criava uma situação muito desagradável e prejudicou muito, inclusive, a música clássica de autores brasileiros. Hoje, há um pouco mais de consenso a respeito do fato de que o gosto das pessoas não é uma coisa assim tão compartimentada. Há momentos para se apreciar sinfonias de Bruckner e há momentos para se apreciar uma boa moda de viola. O inimigo não é o outro gênero. O inimigo é a mediocridade e o oportunismo, que pode se manifestar tanto na forma de um artefato musical quanto de um programa de TV, de uma rede de fast food ou de uma candidatura política. Hoje, muitos organismos, como as orquestras, os centros culturais, as gravadoras, etc. já notaram que projetos que envolvam música popular brasileira num contexto clássico são bons formadores de público. Quando uma OSESP grava um disco com a Banda Mantiqueira ou com a Monica Salmaso, ela cria mais aliados, angaria mais simpatizantes. Isso é uma boa ponte para quem tem um gosto mais sofisticado tentar transpor a barreira que leva até a música clássica, que pode não ser uma coisa superior, mas é uma linguagem muito vasta, com códigos muito específicos, e que frequentemente se serve de uma complexidade de composição e de escuta que, evidentemente, não tem paralelo em outros gêneros. Eu acho que o público de música clássica sempre existiu, mas agora está saindo mais para ouvir música. Antes, essas pessoas só iam a concertos internacionais. No país, hoje, há um grande movimento de melhoria das orquestras, e projetos como a OSESP e a Filarmônica de Minas Gerais acabam, por ter uma massa de público que a gente só costuma ver em shows de astros da MPB. O problema é que na atividade local de solistas e música de câmara a coisa ainda não chegou. Não tem como fazer uma série de recitais de violão ou de música de câmara com o orçamento de comunicação que tem a OSESP. Nossa atividade passa forçosamente por duas vias: reputação, sem a qual um artista não sobrevive; e comunicação direta, via internet. Veja um duo como o Siqueira-Lima. Até 4 anos atrás, eles eram estudantes recém-formados e tocavam para públicos de 10 ou 15 pessoas. Depois de algumas aparições bem sucedidas na TV e um vídeo particularmente bem feito do “Tico-Tico no Fubá”, na internet, que teve 1 milhão de acessos, eles têm uma carreira. Só que eles realmente são excelentes, por isso contam com a surpresa do leigo e o respeito do profissional. Eu os tomo como exemplo de uma carreira construída com paciência e mérito.

GV – Você esteve à frente de um importante programa de rádio com foco no violão brasileiro, na Rádio Cultura FM de São Paulo, cuja interrupção causou grande mobilização da classe musical. A que você atribui a falta de interesse na manutenção de iniciativas como esta, por parte das autoridades competentes e dos órgãos que, teoricamente, norteiam nossos meios de comunicação?

FZ – Ali não foi desinteresse de um órgão público, foi desinteresse de uma direção em particular. A direção da Fundação Padre Anchieta pelo Paulo Markun foi marcada pelo desinteresse pela rádio FM Cultura. Para administrar esse desinteresse, ele colocou à frente da rádio uma direção disposta a tocar o barco com menos verba e pouca reivindicação. A um dado momento, eles tiveram de cortar uma boa parte dos programas temporários como medida econômica, e o meu estava entre eles. Espero que tenha sido cortado exclusivamente por falta de afinidade artística. Mesmo que tenha sido, ouvir o que não foi cortado só me leva a crer que a direção não tem muita noção de como manter uma programação da melhor qualidade e não leva em conta o poder que o meu programa tinha de formar público, de atingir um ouvinte que não é o ouvinte típico da Rádio Cultura. Então o problema não está no “sistema”, mas nos equívocos de uma direção que, aliás, já se foi. Acontece, entretanto, que o meu programa era muito trabalhoso para se produzir. Era uma semana de pesquisa para cada programa, um dia escrevendo o roteiro, uma manhã gravando o programa; muitos programas envolviam entrevistas, gravação de músicas em estúdio, etc. o que tomava mais horas de estúdio e do meu tempo. Francamente, se fosse para voltar com o programa teria de ser com uma remuneração num patamar que dificilmente uma rádio pública pode alcançar.

GV – O que você considera fundamental para o desenvolvimento de uma linguagem própria na interpretação da música erudita para violão, respeitando-se os conceitos estéticos e estilísticos de cada período?

FZ – Puxa, aí você me pegou. Eu não consigo pensar numa resposta que não passa pela idéia – meio fora de moda – de talento. Tem gente que é muito mais competente tecnicamente que eu, por exemplo, mas não consegue, por mais que estude, criar uma identidade musical reconhecível. Eu acho que, tirando a parte óbvia, que é dominar o instrumento tecnicamente e as questões mais elementares de interpretação musical, tem de ter um processo desinibidor da imaginação. A pessoa tem de ter um cérebro “ativado” para isso, que se deixe impressionar pela música e reconstruir uma paisagem sonora a cada vez que é estimulado de forma profunda por uma obra musical. Talvez isso passe por uma formação cultural – tanto em música quanto fora dela – que não é talvez o interesse primeiro da maioria dos violonistas. Muito da música de violão, quando eu toco ou escuto pela primeira vez, acende “luzinhas” na minha cabeça, que me remetem a outras obras musicais, a outras sonoridades e texturas, a outras maneiras de se expressar, que extrapolam o violão. Formar um estilo pessoal, para mim, depende muito de como a gente persegue essas “luzinhas” na interpretação, sem perder de vista a especificidade do texto e do contexto musical. Para mim, isso passa forçosamente pela manipulação de sonoridade e do ritmo. Tenho muito respeito por quem consegue criar um estilo próprio sem fazer um fetiche da sonoridade, porque eu não conseguiria.

GV – Você acha possível, para o jovem instrumentista, desenvolver uma carreira e viver de concertos e recitais em nosso país?

FZ – Não. Nem aqui nem em nenhum país. A carreira do concertista é internacional. Talvez em um país muito rico e com um mercado profissional muito amplo, como os EUA ou a Alemanha, seja possível ter uma renda significativa com uma atividade local, mas mesmo assim seria uma coisa bem limitada. Eu vejo dois cenários possíveis: ou a pessoa tem a sorte de expandir sua atividade internacionalmente, ou ela tem uma atividade local mais diversificada, que inclui concertos, ensino e atividades correlatas como organização de eventos, trabalho de estúdio, composição, terceiro setor, etc. Eu tenho, involuntariamente, uma combinação das duas coisas, pois também escrevo, dou cursos, fiz os programas de rádio, etc. Mas o Brasil está melhorando. Se for nesse ritmo, daqui a 20 anos teremos um cenário muito mais diversificado que aquele em que crescemos. A nossa geração tem sido muito fecunda nesse sentido. Antigamente, músico era o sujeito que tocava ou dava aulas, Hoje, o leque de opções é muito mais amplo.

GV – O que você diria ou recomendaria àqueles que estão iniciando uma vida profissional como instrumentistas?

FZ – Sem um certo grau de fanatismo, na nossa profissão, não se chega a lugar nenhum. Para alguns, isso se manifesta com o violão na mão 24 horas. Pra outros, isso se manifesta na gana por ouvir, fuçar, pesquisar. Eu acho que, sem essa indagação fáustica de se buscar a verdade artística, a gente nunca tem a garra necessária para vencer as dificuldades de uma profissão de alta especialização. Por isso acho que uma recomendação bem generalizada seria cuidar do aprimoramento pessoal. Buscar um prumo interior. Outra recomendação mais prosaica seria comprar um despertador e um bloco de anotações para dividir bem o tempo de trabalho. Hoje a quantidade de estímulos externos é muito grande. Para manter o foco, é preciso ter uma lista de tarefas e cumpri-la à risca, inclusive para ter uma vida pessoal mais tranqüila. Um abraço!