“… Dissonância é uma tensão e consonância é a descontração correspondente e necessária. Mas nenhuma delas, tensão ou descontração, pode ser feia, porque nesse caso não constituem mais música”. (Herbert Von Karajan)

Em uma discussão sobre música, estética e mercado, o jornalista me perguntou o que chamava de qualidade na arte musical… Pergunta difícil de responder.

Qualidade é tudo aquilo que escolhemos a partir do conhecimento empírico, embasados pela experiência prévia, sem intervenções exteriores. Sem influência da massificação invasiva. Consequência da renovação que passa pelo filtro da vivência e por meio do experimento. Como acontece com os alimentos que escolhemos e gostamos ou não, por exemplo. Do contrário estaremos sendo conduzidos por tendências e modismos. Tudo isso passando pelo bom nível da educação de base. Questão preocupante no Brasil. Se nos falta a possibilidade da escolha por meio do acesso irrestrito a todo tipo de bem cultural, somos impelidos pelo sistema e enganados por falsos “vendedores” de cultura, à aceitação de conceitos empacotados, que inibem nossa compreensão, inclusive, da importância da indústria do entretenimento. Fator fundamental e necessário para a geração de empregos em todas as artes, com maior ou menor grau de intervenção.

Mesmo fora da arte, a história nos mostra exemplos que corroboram a massificação como instrumento de persuasão de massas, nem sempre positivo.

As guerras, normalmente acontecem a partir de uma ideia massificada pelo desejo de poder, de valorização do patriotismo, com o apoio e negociação de pessoas, organizações e países, entre outros, que, condicionados, pensam da mesma forma e buscam benefícios parecidos. Ou triunfos que lhes garantam a possibilidade do vislumbre de avanços na área econômica, principalmente. Algumas se tornaram históricas e perpetuam o ódio entre raças e etnias. Raríssimo o caso de um indivíduo que esteve em uma guerra, que se sinta realizado após a euforia de patriotismo e regresso ao cotidiano da vida. À rotina do pensamento, sem as influências que o conduzem aos atos heróicos em defesa de sua nação e consequentemente, na guerra, de sua própria vida.

Os últimos anos têm sido difíceis para os artistas. Verdadeira guerra contra modismos, tendências e falta de políticas públicas para a cultura, tornando a luta pela manutenção de carreira uma tarefa quase inatingível. Uma desarmonia sem perspectiva de uma suave resolução.

Estruturas foram desmontadas por inabilidade e falta de criatividade na condução da máquina que move os negócios da cultura e por políticas que, em princípio, tiveram a pretensão da estatização da arte. Um investimento que custou muito caro a toda a cadeia produtiva e, principalmente, aos chamados “artistas independentes”. Tudo isso, associado à grande mudança de conceito quanto ao produto físico como forma de comercialização ou vitrine para a condução e projeção de carreira, nos trouxe um tempo em que, com cautela, devemos repensar a situação e buscar alternativas plausíveis.
Arte é o “fazer”. O resultado… A propagação dos bens culturais e o acesso irrestrito do público, dependem de políticas econômicas que facilitem e fomentem a indústria cultural em todos os níveis. Que facilite o trânsito e a comercialização, viabilizando a produção, o comércio e a expansão. Tudo em prol da evolução e fortalecimento cultural do público final, contribuindo assim para o aprimoramento do filtro individual que influenciará a escolha, a apreciação e, consequentemente, o consumo. Ou não.

Infelizmente o que se vê hoje é o contrário. A produção, nos dias atuais, se encontra em frangalhos. Salvo pequenos grupos que, heroicamente, conduzem seus trabalhos de forma insistente, em uma luta de resistência. Estúdios de gravação e prestadores de serviços da área técnica seguem em desespero, reduzindo custos e digladiando com um mercado cruel, marcado pela concorrência desleal e pela mediocrização da qualidade técnica. A era do “faça você mesmo” nos trouxe maior liberdade, mas também uma banalização do fazer artístico. Do ser artista.

Os eventos musicais, teatrais e alguns outros não se sustentam financeiramente e não contam com um público considerável, ávido de novas propostas. Não houve nos últimos tempos um investimento em formação de público. Mas sim, uma inversão de valores onde a gratuidade dos espetáculos sustentados por leis de incentivo, onde patrocinadores assumiram o comando dando as diretrizes e sendo conduzidos por seus departamentos de marketing, contribuiu para um empobrecimento e desânimo na busca da arte como alimento para a alma.

Com a quase falência do estado, as políticas públicas de apoio à arte e à cultura geral, necessárias para a evolução, foram abaladas e, hoje, refletem a verdadeira situação em que vive a classe artística: desnorteada. Muito se fala em efervescência cultural e em novas propostas de apoio à produção. Mas o que presenciamos é um total desconhecimento administrativo e uma ausência de estratégias que visem o revigoramento da classe artística por meio da criação de ferramentas que auxiliem diretamente o produtor e o artista. Eventos maiores, que atendem mais ao conceito de entretenimento e não de fomento ao “fazer cultural”, quase sempre com propósitos subliminares, são conduzidos sem uma transparência que nos permita olhar com bons olhos e esperança para o futuro.

A cultura acontece no dia a dia das cidades. Em eventos pequenos e médios que primam pela nobreza e honestidade em todas as etapas. Desde a elaboração dos projetos e curadoria, até os cachês justos e contratos transparentes. Com compromisso com a diversidade cultural, não cedendo aos interesses e modismo massificado.

Não é possível viver em um estado de dissonância permanente. Embora tenhamos entrado nessa guerra por condicionamento e também por interesse e crença em melhores condições para nossas vidas e para nossa verdadeira arte, teremos que encontrar uma porta de saída. De retorno para a nossa casa.
Mesmo em meio a grandes crises, a boa vontade e o compromisso com a cultura e bem estar de todos os seus atores, se tornam a mola propulsora que nos mostrará um caminho saudável. Novas gerações surgem, em todo o Brasil, com propostas inovadoras nesse período de grandes mudanças e, ao mesmo tempo, de estagnação. Verdadeiro paradoxo de nosso tempo que deverá se desenlaçar para que possamos viver uma nova fase de consonância. De harmonia. Por que não alimentaríamos a fonte que nunca nos deixa sedentos e que poderá ser a grande saída para os tempos atuais e vindouros? A criatividade em todos os âmbitos? Não sei. Essa resposta cabe àqueles que se dizem condutores da cultura.