– Não são do bem nem do mal. São facções opostas.

Foi assim que meu filho respondeu à minha pergunta sobre os personagens de um joguinho eletrônico. Após dizer-lhe que a resposta era sábia, sem que ele desse qualquer  importância à minha opinião, seguimos jogando. Ou melhor, ele jogando e eu o observando. Sou péssimo nesse item.

Hoje, após abrir os olhos pela manhã, lembrei-me de nossa conversa. Depois de perambular por muitas hipóteses em busca de compreensão desse mundo estranho, onde amigos se digladiam e acreditam em opiniões (verdades)  apresentadas pela via escrita, justificando agressões nomeadas de “discussão saudável e necessária”, finalmente me veio a revelação que eu buscava. Já suspeitava, mas dita de forma metafórica, tendo como roteiro elipses da vida, fica tudo mais simples. Ditas com naturalidade, por uma criança, dando a devida importância: posicionamento.

Em minha mente desfilaram várias frases que presenciei, li ou ouvi ao longo da vida e que são atribuídas, nesse mar de insegurança e mediocridade filosófica que configura  a internet, a qualquer autor… Vladimir Horowitz me diz sobre a crítica na música: “Trata-se apenas de uma opinião. Opinião todos têm…”. Nietzsche proclama: “Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse”…

Em meio ao turbilhão que invade minha mente e meus olhos nesse lamaçal de opiniões, penso na realidade da vida. Às vezes dura. Não para mim. Acho que sou privilegiado por poder fazer música, escrever, sonhar… Mas para alguns que vagam pela cidade sem uma rota estabelecida. Que se reúnem, às vezes, para uma comemoração inusitada e, tal qual em um encontro marcado, festejam o nada.

Hoje, em frente à Biblioteca Pública, na Praça da Liberdade, enquanto caminhava com meu filho depois de visitar alguns museus, vi uma cena curiosa. De um lado um feliz encontro de personalidades da literatura, que nos ensinaram muito sobre a vida e o respeito à cidadania. Ali reunidos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campo pareciam, em conversa animada, discutir sobre a educação, a cultura, a poesia… Talvez sobre o jazz e a vida.
Do outro lado, alheios ao bate papo dos mestres, alguns moradores de rua cumpriam sua sina de nômades. Enquanto um dormia, outros preparavam, em uma cozinha improvisada com fornalha e utensílios gastos, algum tipo de alimento. A conversa era monossilábica. Pareceu-me que recebiam visitas, pois uma mulher chamava um dos presentes, dizendo que já estava na hora de irem embora.
Meu filho me perguntou se moravam lá… Olhei-o, pensei e disse:
– Hoje sim. Amanhã talvez em outro ponto da cidade. São errantes que sofrem com o desprezo de políticos que não compreendem que o bem estar das pessoas é a maior  obra da vida,  capaz de transformar culturas e melhorar o mundo. Ele olhou-me e disse de forma curiosa:
– Eles não têm casa?
Disse-lhe que ainda não. Mas que o mundo ia mudar e as pessoas de boa fé, (para mim, verdadeiros representantes do Brasil de Darci Ribeiro e tantos outros), viveriam bem e teriam paz em seus lares com suas famílias, independente de serem menos privilegiadas. Sem fome, com escola, saúde, emprego… Seguimos. Ele lamentando a distância do carro. Eu pensando com certo amargor: em breve teremos eleições. Será o momento de exercitarmos nossa cidadania e demúocracia escolhendo bem nossos representantes.

Olhei ainda para trás e vi uma cena bonita. Um dos moradores de rua apoiava seu braço nos ombros de Fernando Sabino e falava algo que eu não podia ouvir. Talvez celebrasse o “Encontro Marcado” com o respeito ao ser humano. Sorriam.