Levantei e me dirigi à janela de meu quarto, como sempre. A manhã bonita me trazia um ar suave e fresco. Quase frio. Olhando a rua, percebi duas moças conversando ao lado de seus carros estacionados na contramão. Pensei comigo: será que o mundo amanheceu ao contrário? Ri desse pensamento inusitado e resolvi seguir em frente. Acreditar que o mundo mudara de direção. Isso me divertia…

Um senhor, seguindo seu hábito diário, descia a rua com seu buldogue. Apanhava, cuidadosamente, toda a sujeira deixada na calçada pelo seu cão. Usava luvas de plástico e trazia, pendurado no ombro, uma sacolinha de lixo. Meneou sua cabeça ao passar pelas moças e, sorridente, seguiu seu caminho. O porteiro de meu prédio, com voz baixa e sutileza insuspeitada assentiu com aprovação dizendo com voz delicada: – Muito amável.

Depois de um breve café da manhã, me dirigi ao supermercado. Após as compras fui atendido, no caixa,  por uma jovem muito atenciosa e sorridente. Ao me apresentar a conta, olhando-me nos olhos, ela perguntou sobre a forma de pagamento: dinheiro, cartão de crédito, débito… Optei pelo débito e fui atendido prontamente. Terminado o acerto ela, calmamente, me ajudou com as sacolas e me desejou um ótimo dia.

Ao atravessar a rua em direção ao meu carro, observei um motoqueiro parado na esquina com atitude solícita, acenando para uma velha senhora que parecia levar seu netinho à escola. Estranhei muito a falta de pessoas pobres na rua também. Isso me animou ainda mais. Experimentava, naquele instante, um sentimento de bem estar, interrompido somente pela estranheza do silêncio nas ruas. Não ouvia buzinas de automóveis, mesmo havendo certo engarrafamento no trânsito. Percebi a possibilidade de um mundo melhor e mais calmo, surgindo nesse dia, diante da gentileza das pessoas.

Voltando para casa, próximo de uma escola, um guarda de trânsito acenou para que os carros parassem, dando passagem para algumas crianças acompanhadas pelos professores. Dois carros à minha frente pararam, seguidos por mim. Eu observava aquelas crianças atravessando a rua em algazarra, brincando e formando pequenos grupos. Despertei do transe ouvindo o barulho dos pneus de um carro sendo freado bruscamente. Fui lançado no canteiro central da avenida, tendo meu carro dilacerado do lado direito.

Policiais saíram da viatura que havia atingido meu carro e um deles, talvez o superior, perguntou-me se estava tudo bem. Foi logo se desculpando e explicando que seu colega que dirigia a Rádio Patrulha, sentira-se mal, motivo que o levou ao acidente. Educadamente, todos os policiais me ajudaram a sair do carro. Em poucos segundos havia vários carros de polícia dos dois lados da avenida. Depois de recomposto, diante de vários pedidos de desculpas, tomei um táxi e segui para minha casa, enquanto meu automóvel era levado por um guincho para uma oficina. Mesmo em meio àquela confusão, sentia-me tranquilo. Estava bem e fora muito bem tratado pelos policiais.

Chegando à entrada de meu prédio pude ainda observar as duas moças com seus carros parados em sentido contrário, se despedindo. Manobraram e inverteram a posição, assumindo o sentido permitido nessa rua de pouco tráfego. Chegando ao meu apartamento, dirigi-me à janela de meu quarto. Não as vi mais. O interfone tocou e pude ouvir o porteiro me avisando da chegada de uma encomenda pelos correios. Ouvia sua voz vindo da janela, mais que do interfone… Lembrei-me de uma frase de uma pessoa amada: “-  Tudo está como deve ser”.

*Para compreender melhor o conteúdo, releia o texto imaginando tudo ao contrário, exceto a cena que deu origem à narrativa e o acidente de automóvel.