Curvas perigosas pela frente. Olhar atento. Mãos ansiosas se alternando entre marchas fortes e toques sutis buscando, ora os cabelos, ora outras mãos distraídas, esperançosas e solícitas… Carentes de afago. A tarde linda e embaçada, prenunciando uma noite de estrelas com um ar fresco, quase frio. À frente, uma lua cheia, prateada, preguiçosamente se impondo. Uma música suave embalando os sonhos e acariciando os ouvidos.

Olhos mirando belezas naturais e subjetivas, enquanto o tato comprova o calor que brota das mãos e de todos os poros. Um suave perfume dos cabelos se confrontando com uma fragrância que emana da natureza. Renovada, nessa tarde, no movimento cíclico da vida. Somente a boca ansiando por exercer seu sentido nessa hora. Em vão…

O carro avançando, a noite adentrando e o milagre da hora misteriosa se revelando no crepúsculo. Tanta beleza levando alguns dos viajantes ao sono. Sono leve, breve. Um transe diante do prazer que as coisas simples nos trazem.

Algumas curvas à frente, já viajando em terras quase planas, e chegamos ao destino. Um lugar simples, onde tudo demonstra requinte e bom gosto. Rodeado por natureza e montanhas, mesas portando toalhas com estampas alegres nos aguardando. De longe uma vaquinha com seu olhar lânguido, nos observa. Talvez indagando o que acontecerá nessa noite, para ela, tão agitada. Enquanto a luz se extingue, nos permitindo ver somente silhuetas das colinas em volta, carros estacionam trazendo, para minha surpresa, pessoas amigas, queridas. Como se houvéssemos combinado um grande encontro. Eu não esperava… A felicidade redobrada, regada por cervejas geladas, nos deixando, aos poucos, certos da possibilidade da existência do  bem nas coisas simples. Desconstruindo conceitos grandiosos de busca do “bem estar”.

Brindando a noite, um “cantador dos bem adiferente”, empunhando seu violão, canta para a lua com seu manto de estrelas, inundando os corações com seu brilho. Traz notícias de uma gente que vem de longe, de terras lusitanas. Fala de plantações de estrelas e de amores vividos a dois. E a noite avançando. E as vozes cantando alegrias em preces eternas. E a prosa rendendo. E a amizade e os sorrisos se multiplicando. Corações palpitantes e lamentosos. Chegará a hora da Travessia… Há outros tempos, outras vidas para viver e sonhar. E o coração em dúvida eterna. E a noite esfriando e os olhos se fechando…

Entre abraços, sorrisos e beijos, cada um seguindo seu caminho. Indo não se sabe para onde, levando apenas a lembrança de um momento bom. De vida. Na alma, o medo de perder essa lembrança e uma súplica à mãe de todos: “Ora pro nobis peccatoribus, Nunc et in hora mortis nostrae”. Olhos cansados e luminosos, ainda roubo um beijo bem roubado… Beijo simples. Infantil. Depois de muitas tentativas e negativas.

Noite adentro, um carro avança em uma estrada solitária, rumo ao princípio do mundo…