A busca na criação, o  motivo. O embrião da estética, da palavra, do conteúdo… O risco. Quando não nos deparamos com eles, versamos sobre o nada e somos apanhados – despertados – em emboscada.

No amanhecer da busca, os pressentimentos sutis nos aquecem a alma, enquanto o olhar, voraz de ideias, traz-nos a urgência. A partir daí, nos debruçamos sobre a vida e o mundo lá fora deixa de existir. O encontro nos leva à mirada primordial da natureza, do comportamento e do sentimento. Variantes eternas.

Misteriosa, sem olhar nos olhos, fala pouco e encanta o mundo à sua volta. Todos mirando com amores suplicantes em seus olhares. Recatada, tal qual Remédios** – a bela – contamina, com sua beleza e pureza, todos os olhares ardentes, vermelhos e lacrimosos, à sua volta… São muitas janelas. De sofrimento, de espera, de sonho e de erro. Reflexos conduzindo à sensualidade impensada, percebida somente pela imaginação… Amores.

O desejo palpitando em seus seios. O compromisso e retidão conduzindo-a à religiosidade. Sua voz… Solidão, nudez, indecisão… O carinho sussurrando no ouvido, com seu hálito quente, que teremos sempre que transcender: amar, sorrir, aceitar, beijar e… Acordar. Destruir as imagens formatadas pelo desejo e forçadas por nossos olhos com precisão de teleobjetiva. Diluir desejos e viajar para além das nuvens. Onde não existem diferenças. Onde a busca e o encontro se desconhecem. Onde tudo se percebe, mas com o tempo se dilui. Não para todos. Para alguns…

As noites não se encontram com os dias. Os voos são mais altos que os passos que pisam e atordoam as folhas, o chão. A dúvida, as certezas, a sorte… Mas há o eclipse. Lua (sonho), Terra (vida) e Sol (luz) se alinhando e nos dando o imenso necessário para a alma. Já há um sonho, um caminho, uma vida… Diluindo a esperança, “Além das Nuvens”.

*Filme dirigido por Michelangelo Antonioni e Wim Wenders.
**Cem anos de solidão – Gabriel Garcia Marquez