Na beira do rio o homem pergunta ao pescador:
– Está dando peixe?! –  O silêncio permanece… O homem pergunta novamente. Silêncio absoluto… Retirando o anzol da água, o pescador, meio em transe, diz:
– Você quer pescar? Então mantenha o silêncio. O barulho perturba a calmaria e provoca o caos. Traz a desordem.

Liberdade: “Poder de agir no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas” (Dicionário Aurélio).

A definição do termo, em si, já traz algumas contradições e funciona como uma armadura de guerra que, mesmo protegendo, tolhe os movimentos. Nascemos livres e somos, naturalmente, formatados pelo sistema, por nossos pais e professores, para que tenhamos atitudes condizentes com o que a sociedade espera de nós mesmos. A ética provinda de nossa formação vai nos conduzir ao que é chamado de certo e errado.

Em nosso cotidiano, somos livres desde que estejamos em dia com os impostos, planos de saúde, bancos etc.. Depois disso tudo vêm as questões sociais, às quais somos induzidos a pensar que são de nossa responsabilidade: diferenças de classe, fome, desemprego, saúde… A partir daí, podemos pensar em nós mesmos: gostos pessoais, escolhas, livre arbítrio…

Ilusão.

Ditam-nos normas de conduta, regras e movimentam as informações, sabe-se lá com que objetivos. Criam modelos de beleza, de felicidade, de bem estar… Assim seguimos crentes no saber o que nos é importante ou nos dá importância.

Liberdade…

Somente somos livres no pensamento e no sonho. A qualquer instante podemos comprar uma passagem (primeira classe) e embarcar para uma viagem que pode ser a qualquer parte do mundo, do coração ou da realidade. Cada um construindo sua programação para viajar e viver bem. Ou mal.

Me vem à mente algo que escrevi, há muitos anos atrás: “Quando penso na forma como me envolvi com a música, me volta à memória a minha infância, quando, aos sete anos de idade, adormeci para a realidade do dia a dia e despertei em um sonho de magia e de sons. De lá para cá, entre acordos e desacordos, às vezes, volto a essa realidade e, como não me encontro, novamente retorno ao sono profundo e encantador que é a música.”

Na beira do rio o pescador pergunta ao homem:
– Você quer pescar? – O silêncio permanece… O pescador pergunta novamente. Silêncio absoluto. Retirando os olhos da água, o homem, meio em transe, diz:
– Me desculpe. Estava me olhando nesse espelho das águas… Está dando peixe? Quer que mantenha o silêncio? Eu sei que o barulho perturba a calmaria e provoca o caos. Traz a desordem. Aqui dentro, ouvindo a natureza, eu sinto uma paz muito grande em minha alma e no coração.