Aviões de guerra bombardeavam a cidade.  Alguém me cedeu uma arma que mais parecia um brinquedo quebrado. Tentando descobrir uma forma de maneja-la, enquanto me protegia, eu corria de um lado para o outro, entrando em canais de esgoto e mantendo sob minha mira, todos que encontrava.  Parecia um filme, mas havia certa carga de realismo e um tipo de medo que me movia e ao mesmo tempo me fazia refém do acaso. Viver ou morrer lutando, sem me preocupar com a diferença entre ambos. Em alguns momentos tudo me parecia brincadeira. Daquelas da infância…
Acordei em uma cidade da Bolívia. Da janela eu via parte de uma linda praça em frente à Igreja de São Francisco. Na noite anterior, apesar do frio, estivera ali observando inúmeras pessoas enquanto pensava no Santo de Assis. Quanta bondade e coragem ao mudar a direção de sua existência! Imaginei como deve ser difícil se destacar entre as pessoas simples, tendo como escudo a simplicidade. Ser considerado santo somente por aqueles que se despem da vaidade e da soberba. Os Santos estão sempre muito distantes de nós mesmos, de nossos problemas… De nossa santidade.
Naquelas luzes brilhantes, com trilha sonora de um tráfego barulhento e confuso, me mantive alguns eternos minutos ocupado. Em minha mente, um desejo de compreensão da vida, dos motivos que nos conduzem nessa busca, quase estúpida, sem sabermos o que buscamos, trilhando caminhos que, às vezes, não conhecemos ou escolhemos. 
Nas ruas confusas, camelôs preparando suas barracas e expondo seus produtos. Uma desordem organizada e desenvolvida, com o tempo, pela necessidade de espaço para alojar tantos trabalhadores. Mulheres com crianças às costas, empilhando suas mantas e tecidos, ponchos, gorros e instrumentos musicais. Um espetáculo roteirizado no dia a dia da rotina de pessoas simples e encenado nas ruas, em feiras a céu aberto, onde a vida acontece em uma sucessão histórica, alimentando o inconsciente coletivo e dando o sentido e o sustento para a  sobrevivência. 
Uma imagem me chamou a atenção… Sentada em uma esquina, uma senhora solitária, mantinha suas mãos no rosto, em atitude de fadiga. Às vezes olhava para um lado e em seguida para o outro. Parecia mirar o mundo como espectadora. E a vida acontecendo. E as pessoas passando e as horas avançando… 
Na vidraça, enquanto contemplava essa emanação da existência, eu me via refletido. Meu pensamento perfurando essa imagem que me separava do mundo lá fora. Minha ancestralidade me chamando para a vida em ebulição. Meus compromissos me apressando para um dia de trabalho. Meus sonhos, amores e desejos sobrevoando o meu pensamento. E a respiração arquejante me forçando o peito. E o desejo de saber o que aquela senhora pensava, onde vivia, como vivia, o que buscava… E o reflexo de minha imagem cedendo lugar para uma luz forte, ofuscante. Lá fora um  sol morno inundando o dia. E aviões de guerra bombardeando a cidade enquanto uma luz brilhante, com trilha sonora de um tráfego barulhento e confuso, me mantinha alguns eternos segundos ocupado… Estava em La Paz.